A DISPUTA PELOS CABOS SUBMARINOS: INFRAESTRUTURA INVISÍVEL DO COMÉRCIO MUNDIAL
Por: Mateus Dias Viana; Juliana Sousa; Guilherme Romano

Resumo:
Os cabos submarinos de fibra óptica constituem a espinha dorsal invisível do comércio e das comunicações globais, responsáveis por mais de 95% dos dados internacionais. Essa infraestrutura sustenta sistemas financeiros como o SWIFT, cadeias logísticas e o comércio digital. A distribuição geográfica dos cabos é desigual e concentrada em corredores estratégicos vulneráveis, como o Mar Vermelho, onde incidentes podem comprometer o tráfego global de dados. O mercado é dominado por quatro empresas, e a disputa entre Estados Unidos e China pelo controle dessa infraestrutura tornou-se um dos principais eixos da rivalidade geopolítica contemporânea. Além dos riscos de sabotagem e espionagem, a ausência de um regime regulatório internacional agrava as vulnerabilidades e fragmenta a governança dessa infraestrutura crítica.
1. INTRODUÇÃO
Quando um contêiner sai do porto de Xangai em direção a Rotterdam, o rastreamento da carga, a confirmação do seguro, a instrução de pagamento ao exportador e a comunicação entre agentes logísticos em três fusos horários diferentes acontecem em frações de segundo. Essa fluidez parece quase mágica e é, justamente por isso, perigosa de se dar por garantida. Por baixo dessa aparente leveza digital há uma infraestrutura concreta, física e notavelmente frágil: os cabos de fibra óptica que percorrem o fundo dos oceanos.
Como observam Christian Bueger e Tobias Liebetrau, pesquisadores das Universidades de Copenhague e Sciences Po Paris, o fundo do mar tornou-se a super infraestrutura da economia mundial, e pouca atenção pública tem sido dedicada ao que acontece nele (BUEGER; LIEBETRAU, 2022). Esses cabos são responsáveis por mais de 95% de todos os dados que circulam no mundo, incluindo e-mails, páginas web e chamadas de vídeo, o que torna o mito de que “tudo vai pelos satélites” não apenas tecnicamente equivocado, mas geopoliticamente perigoso. Mesmo com a expansão dos satélites nas telecomunicações, os cabos ainda transportam muito mais dados a um custo muito menor.
Alex Capri, pesquisador da Hinrich Foundation, argumenta que os cabos submarinos são, em termos geopolíticos, mais consequentes do que a infraestrutura de redes 5G e do que as comunicações via satélite, ao menos no horizonte previsível, pois por eles circula o núcleo duro dos dados da internet aberta, incluindo transferências para centros de armazenamento em nuvem, comunicações entre multinacionais, transações bancárias e dados militares e governamentais.  Este artigo sustenta que o controle sobre essa infraestrutura invisível tornou-se um dos principais eixos de disputa geopolítica do século XXI, com implicações diretas para o comércio mundial, a soberania digital dos países em desenvolvimento e os equilíbrios de poder entre grandes potências.
2. COMO OS CABOS SUSTENTAM O COMÉRCIO MODERNO
A dependência do comércio global em relação aos cabos submarinos vai muito além da internet convencional. Ela estrutura, de forma silenciosa, as dimensões fundamentais da economia mundial: os sistemas de pagamento internacional, a logística portuária em tempo real, o comércio digital e as cadeias globais de valor que conectam fábricas, fornecedores e consumidores em múltiplos continentes.
No campo financeiro, a dependência é especialmente crítica. O sistema SWIFT conecta mais de 11.000 instituições financeiras em mais de 200 países, viabilizando a transferência segura de trilhões de dólares em transações diárias, desde grandes transferências interbancárias até operações de comércio exterior. Toda essa movimentação depende, em última instância, da latência ultrabaixa e da capacidade de transmissão que somente os cabos de fibra óptica submarinos conseguem oferecer. Como demonstra Alan Mauldin, analista sênior da TeleGeography, apenas as transações SWIFT, somadas a outros sistemas financeiros internacionais, movimentam dezenas de trilhões de dólares por dia, volume que simplesmente não seria viável por satélite.
Na esfera logística, os cabos são igualmente indispensáveis. O rastreamento em tempo real de cargas, a comunicação entre terminais portuários, o despacho aduaneiro eletrônico e a coordenação entre armadores, transitários e seguradoras ocorrem por meio de sistemas digitais que dependem de conectividade estável e rápida entre continentes. Uma interrupção que afete a comunicação entre Ásia e Europa não apenas prejudica o fluxo de informações, mas pode paralisar decisões operacionais em cadeias produtivas que não comportam qualquer margem de atraso. Esse risco deixou de ser hipotético: em março de 2024, falhas inexplicadas em múltiplos cabos na costa da África Ocidental causaram interrupções significativas de internet em pelo menos dez nações.
O comércio digital, por sua vez, é estruturalmente inseparável dessa infraestrutura. As chamadas hyperscalers, como Meta, Microsoft e Amazon, aumentam sua demanda por capacidade de cabos submarinos em até 60% ao ano, o que evidencia que a dependência não é apenas atual, mas crescente. Sophia Besch e Erik Brown, pesquisadores do Carnegie Endowment for International Peace, sintetizam bem o problema ao afirmar que as implicações de um cabo cortado reverberam pela produção industrial moderna e pelo comércio financeiro de forma que os governos ainda estão aprendendo a mensurar (BESCH; BROWN, 2024).
3. A GEOGRAFIA DOS CABOS: QUEM CONTROLA O MAPA
A distribuição dos cabos submarinos pelo mundo não é neutra. Ela reflete décadas de investimentos privados, acordos diplomáticos, estratégias corporativas e, crescentemente, ambições geopolíticas de Estados que enxergam na infraestrutura digital um ativo estratégico de primeira ordem.
O primeiro elemento a compreender é a concentração física das rotas. Os cabos terminam em mais de 1.700 pontos de aterramento ao redor do mundo, com distribuição profundamente desigual: há densas concentrações na Ásia-Pacífico, na Europa e na América do Norte, enquanto o Oriente Médio e o leste da África funcionam como zonas de trânsito crítico conectando os dois maiores blocos econômicos do planeta por corredores marítimos estreitos. Bueger, Liebetrau e Franken descrevem esse fenômeno como a política da infraestrutura oculta: sistemas dos quais o mundo inteiro depende, mas que operam fora do radar regulatório e do debate democrático (BUEGER; LIEBETRAU; FRANKEN, 2022). Em 2024, incidentes com cabos no Mar Vermelho chegaram a interromper cerca de 25% do tráfego de internet entre Europa e Ásia, evidenciando o quanto a concentração geográfica das rotas transforma qualquer tensão regional em risco sistêmico global.
O segundo elemento é o domínio do mercado por um número reduzido de empresas. Aproximadamente 98% dos cabos submarinos do mundo são fabricados e instalados por apenas quatro empresas privadas: a americana SubCom, a francesa Alcatel Submarine Networks, a japonesa NEC e a chinesa HMN Technologies, ex-Huawei Marine Networks, que em 2021 detinham, respectivamente, 87% e 11% do mercado global.  Esse oligopólio técnico tem implicações que vão além da concorrência comercial. Capri argumenta que a batalha pelos cabos submarinos é hoje o epicentro da guerra fria híbrida entre Estados Unidos e China, mais consequente do que qualquer outra disputa tecnológica em curso (CAPRI, 2024).
O avanço chinês nesse mercado merece atenção especial. A HMN Technologies tornou-se a empresa de construção de cabos submarinos de crescimento mais rápido da última década, tendo assentado 18% dos cabos mundiais nos últimos quatro anos. A empresa está envolvida em mais de 90 projetos internacionais, incluindo o cabo PEACE, que liga a China à África e à Europa via Paquistão, Djibuti e Egito, estrategicamente roteado para evitar jurisdições ocidentais. Apoiadas por subsídios estatais no âmbito da Rota da Seda Digital, braço digital da Iniciativa Cinturão e Rota, empresas chinesas construíram ou reformaram quase 100 dos 400 cabos submarinos do mundo até 2021.
O terceiro elemento é a reconfiguração promovida pelas grandes empresas de tecnologia, que adicionou uma camada de complexidade à disputa entre Estados. Amazon, Google, Meta e Microsoft atualmente possuem ou arrendam cerca de metade de toda a largura de banda submarina do mundo. O Project Waterworth da Meta, com aproximadamente 50.000 quilômetros de extensão por cinco continentes, conecta Estados Unidos, Índia, Brasil e África do Sul e foi projetado para suportar tráfego de inteligência artificial e computação em nuvem, contornando deliberadamente chokepoints congestionados como o Mar Vermelho e o Canal de Suez. Essa privatização crescente da infraestrutura digital global coloca uma questão urgente que Besch e Brown sintetizam com precisão: não existe, até hoje, um único regime regulatório dedicado à proteção dos cabos submarinos, deixando a governança de uma infraestrutura essencial ao mundo nas mãos de empresas privadas orientadas por lógicas de mercado e de potências que se recusam a estabelecer regras comuns (BESCH; BROWN, 2024).
4. SABOTAGEM E VULNERABILIDADE LOGÍSTICA
Os cabos submarinos conectam as diferentes regiões do globo e são essenciais para a comunicação mundial; por eles transita grande volume de informações e dados estratégicos (TELEGEOGRAPHY, 2024). Em razão de sua importância, em um período de corrida informacional, esses cabos podem se tornar alvos de ataques, sabotagem e espionagem internacional.
Além disso, a vulnerabilidade física da infraestrutura submarina apresenta também riscos de acidentes, como o impacto de âncoras de embarcações, atividades pesqueiras e fenômenos naturais (ICPC, 2023). Essa fragilidade preocupa a comunidade internacional, já que a interrupção desses cabos pode comprometer comunicações, operações financeiras e o comércio internacional.
Nesse contexto, a vulnerabilidade dos cabos submarinos também passou a ser utilizada como instrumento geopolítico. Estados e grandes potências podem empregar ataques ou ameaças à infraestrutura submarina como estratégia de pressão política, econômica e militar, intensificando disputas no cenário internacional (BURNETT, 2015).
5. ESIONAGEM - O QUE PASSA PELO CABO PODE SER LIDO
Os cabos submarinos são responsáveis pela transmissão da maior parte dos dados que circulam internacionalmente, incluindo informações financeiras, comerciais, governamentais e militares. Em razão dessa importância, essa infraestrutura tornou-se um alvo estratégico para atividades de inteligência e espionagem realizadas por diversos países (BURNETT, 2015).
Embora grande parte das comunicações seja protegida por sistemas de criptografia, existe a preocupação de que dados possam ser interceptados durante sua transmissão. Como observa Greenwald (2014, p. 92), os programas de vigilância em larga escala revelados por Edward Snowden demonstraram que agências de inteligência ocidentais estabeleceram acordos secretos com empresas de telecomunicações para acessar o tráfego de dados que atravessa cabos de fibra óptica. A revelação desses programas ampliou os debates sobre a segurança dessas comunicações.
Dessa forma, a proteção dos cabos submarinos não se limita à sua integridade física. Também é necessário garantir a segurança das informações que trafegam por essas redes, uma vez que o acesso indevido a dados estratégicos pode gerar impactos econômicos, políticos e até mesmo militares.
6. A DISPUTA EUA X CHINA PELA INFRAESTRUTURA SUBMARINA
A crescente rivalidade entre Estados Unidos e China também alcançou o setor dos cabos submarinos. As duas potências reconhecem que o controle da infraestrutura responsável pelo fluxo global de dados representa uma importante vantagem estratégica no cenário internacional (SANGER, 2018).
Nos últimos anos, empresas chinesas ampliaram sua participação em projetos de construção e manutenção de cabos submarinos ao redor do mundo. Em resposta, os Estados Unidos passaram a demonstrar preocupação com possíveis riscos à segurança e à proteção de dados, incentivando países parceiros a adotarem fornecedores considerados mais confiáveis (CLARK, 2016).
Essa disputa vai além da tecnologia e afeta diretamente a economia global. O controle das redes de comunicação influencia o comércio eletrônico, os serviços financeiros e a circulação internacional de informações, transformando os cabos submarinos em elementos centrais da competição geopolítica do século XXI (SANGER, 2018).
7. COMÉRCIO DIGITAL COMO VETOR DE VULNERABILIDADE
A digitalização da economia global impõe uma dependência absoluta das chamadas “autoestradas subaquáticas”. Segundo dados da ONU e análises da Deutsche Welle, entre 95% e 99% de todo o tráfego internacional de informações, dados esse anteriormente citados, entretanto, é de suma importante reforçar essa informação para trazer a devida atenção a um assunto que não tem a devida notoriedade. Entre essas informações, há dados de transações financeiras, comunicações diplomáticas e pessoais sensíveis e transitam por cabos submarinos, que nem o devido cuidado e manutenção podem gerar consequência a nível global.
Embora essa infraestrutura esteja sujeita a danos naturais ou acidentais, a atenção internacional tem se voltado para a crescente sabotagem deliberada, que se tornou um eixo central do debate geopolítico. Devido a avanços tecnológicos, é possível interceptar comunicações de forma silenciosa, sem a necessidade de romper fisicamente os cabos, utilizando veículos subaquáticos autônomos ou submersíveis especializados que drenam informações em tempo real.
Um exemplo crítico dessa vulnerabilidade ocorreu em dezembro de 2025, quando quatro cabos que interligam a Finlândia e a Estônia foram rompidos. O incidente gerou forte suspeita de sabotagem, especialmente após o monitoramento do navio "Egle S", de bandeira das Ilhas Cook, que apresentou indícios de estar no local e ser parte de uma flotilha russa, utilizando manobras com âncora para causar a desconexão.
Paralelamente ao risco físico, o ambiente digital enfrenta uma crise de confiança na cadeia de suprimentos. Relatórios, como os citados pelo Valor Econômico, indicam que os ataques a essa cadeia dobraram entre 2024 e 2025, atingindo níveis alarmantes de sofisticação. Nesse ecossistema, a Inteligência Artificial (IA) atua como uma moeda com duas fases: por um lado é essencial para a inovação e prevenção de riscos, e é simultaneamente utilizada por agentes maliciosos em ataques de AI jailbreak, que é uma forma de enganar IA para obter informações e vantagens. Ao explorar lacunas de segurança nos modelos de linguagem, esses atores conseguem manipular dados e extrair informações confidenciais de forma automatizada e em larga escala.
8. UMA INFRAESTRUTURA SEM GOVERNANÇA
Desse modo, o cenário atual revela uma infraestrutura crítica na qual a velocidade da inovação supera, por larga margem, a consistência da segurança. Atualmente, as empresas operam sob uma "colcha de retalhos" de normas setoriais e legislações genéricas, resultando em sobreposições regulatórias e incertezas operacionais. À medida que setores anteriormente distantes da tecnologia da informação se digitalizam, a complexidade normativa tende a se intensificar. O debate, portanto, deixou de ser uma exclusividade técnica e privada para se tornar um pilar central da governança corporativa e da soberania nacional. A forma como as organizações planejam a resiliência contra incidentes passou a ter implicações diretas na responsabilidade jurídica de seus administradores.
No Brasil, o reconhecimento dessa criticidade avançou em março de 2026, quando a Anatel publicou uma tomada de subsídios para a regulamentação dos cabos submarinos que perpassam as águas jurisdicionais brasileiras. O objetivo da agência é subsidiar a construção de um modelo regulatório moderno, que promova não apenas a expansão da conectividade, mas a resiliência e a segurança de ativos estratégicos, alinhando o país às melhores práticas internacionais de proteção contra interferências externas.
9. CONCLUSÃO
A segurança da infraestrutura digital global não pode mais ser tratada como um simples custo operacional ou uma responsabilidade exclusiva das operadoras de telecomunicações. Como demonstrado pelas tensões vividas nas últimas décadas e pela necessidade de novos marcos regulatórios como o da Anatel, há uma urgência em fortalecer estratégias nacionais e globais para a proteção de ativos submarinos. A integridade da cadeia de suprimentos e a proteção física dos cabos transcendem o interesse privado, configurando-se como pilares da segurança nacional e da estabilidade macroeconômica.
Em última análise, a resiliência do mundo digital depende da nossa capacidade de tratar a infraestrutura invisível, sob o leito marinho e nas camadas de código, com a mesma seriedade com que protegemos o território físico e a soberania das nações. Sem um esforço coordenado e uma governança robusta para mitigar essas vulnerabilidades, a promessa da transformação digital permanecerá permanentemente ameaçada pelo risco de um "apagão" sistêmico sem precedentes e pela erosão da nas comunicações estratégicas.
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