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MERCADO HALAL: UM CAMINHO ESTRATÉGICO PARA O CRESCIMENTO DAS EXPORTAÇÕES BRASILEIRAS

29 de jul.
12 min de leitura

Por: Luciana Crivellari



Resumo:  


O mercado halal passou por uma grande expansão nas últimas décadas, devido à ascensão econômica de Estados Islâmicos, aumento da população muçulmana mundial e credibilidade e segurança dos produtos halal. Neste cenário, as empresas brasileiras analisam as oportunidades ao se inserirem nos diferentes setores deste mercado, tendo vantagens competitivas sobretudo no ramo agropecuário, na qual o país é o maior exportador de carne de frango halal do mundo. Apesar disso, o Brasil também encontra diversos desafios, como os custos de certificação, exigências regulatórias, diferenças culturais, necessidade de rastreabilidade logística e concorrência internacional. Assim, são necessários incentivos para que as empresas consigam se inserir de forma eficaz no mercado halal, ampliando sua presença internacional e diversificando mercados consumidores.



1. INTRODUÇÃO


O conceito de “Halal”, que em árabe significa “permitido” ou “lícito”, refere-se a tudo o que é permitido pela lei islâmica, a Sharia, e abrange diversas áreas. Atualmente, o mercado halal tem ganhado cada vez mais relevância no comércio internacional em razão da ascensão econômica de Estados islâmicos, nos quais os consumidores muçulmanos podem consumir apenas alimentos, produtos e serviços halal, tornando-se um dos maiores mercados de alimentos, bens de consumo e serviços do mundo (Alimentos Halal Brasil, 2026). O mercado mundial de produtos halal apresenta elevado potencial de crescimento que, de acordo com o relatório State of the Global Islamic Economy, entre 2019 e 2024, os segmentos de alimentos e bebidas halal registraram um superávit de US$ 21 bilhões; turismo, US$ 14 bilhões; moda, US$ 34 bilhões; mídia, US$ 34 bilhões; fármacos, US$ 34 bilhões; cosméticos, US$ 10 bilhões; e finanças islâmicas, US$ 81 bilhões (FAMBRAS Halal, s.d.). Tais dados reforçam a expansão contínua do mercado halal e sua relevância para a economia global, abrangendo áreas que vão além do setor alimentício e consolidando sua presença em diferentes segmentos de consumo e serviços.

Nesse contexto, o Brasil ocupa posição estratégica, sendo o maior exportador de carne de frango halal do mundo (SIILHALAL, 2025). Além da força do agronegócio, o país apresenta vantagens competitivas relacionadas à sua capacidade produtiva, à disponibilidade de recursos naturais, à credibilidade sanitária e à experiência em certificação internacional, contribuindo para o fortalecimento da presença brasileira no mercado halal global. Para as empresas brasileiras, especialmente aquelas inseridas no agronegócio e na indústria de alimentos, o avanço do mercado halal representa uma oportunidade concreta de expansão, em que, ao atender às exigências deste segmento, e passam a operar em um patamar mais elevado de qualidade, governança e competitividade internacional (SIILHALAL, 2025).

Dessa forma, este artigo busca compreender como o mercado halal pode representar uma oportunidade estratégica para o Brasil ampliar sua inserção internacional, diversificar exportações e agregar valor à produção nacional, especialmente no contexto do agronegócio e da indústria de alimentos, além de permitir o fortalecimento das relações comerciais com países de maioria muçulmana, ampliando a presença brasileira em mercados de grande relevância econômica. Assim, a adequação às exigências do mercado halal contribui para a expansão das exportações e para o aprimoramento de padrões produtivos e de certificação, elevando a competitividade das empresas brasileiras no comércio internacional. O mercado halal, portanto, se insere como um fator relevante dentro de um contexto de crescente integração econômica global, no qual a adaptação a diferentes normas e demandas de consumo se torna essencial para o posicionamento estratégico do Brasil no mercado externo.



2. DIMENSÃO GLOBAL DO MERCADO HALAL


No contexto econômico, o termo “halal” refere-se a produtos, processos e serviços que estão em conformidade com normas religiosas específicas, abrangendo desde a origem das matérias-primas até as etapas de produção, incluindo higiene, armazenamento, transporte e comercialização. Em contraste com o conceito de haram, que significa “proibido” em árabe, o halal estabelece um conjunto de critérios éticos e sanitários que orientam e regulam o consumo da população muçulmana em diferentes regiões do mundo (BRASIL, 2025).

Embora historicamente associado ao setor alimentício, o mercado halal passou por uma grande expansão nas últimas décadas, passando a abranger uma ampla variedade de segmentos econômicos, sendo estes alimentos e bebidas, cosméticos, produtos farmacêuticos, moda islâmica, turismo halal, logística, serviços financeiros islâmicos e plataformas digitais voltadas ao consumo muçulmano, deixando de se restringir a uma exigência religiosa e consolidando-se como um parâmetro global de qualidade, rastreabilidade e confiabilidade. No setor alimentício, por exemplo, os produtos halal devem seguir normas específicas relacionadas ao abate animal, à manipulação dos alimentos e à exclusão de ingredientes proibidos, como carne suína e álcool. Já nos setores farmacêutico e cosmético, é necessária a ausência de substâncias derivadas de componentes considerados ilícitos pela Sharia, exigindo sistemas rigorosos de controle e auditoria em todas as etapas da cadeia produtiva (FAMBRAS Halal, s.d.). Desse modo, há certificadoras responsáveis por auditar empresas e emitir certificados halal reconhecidos internacionalmente, sendo essencial para que os produtos tenham acesso a mercados consumidores no Oriente Médio, na Ásia e na África. No Brasil, entidades certificadoras, como a Fambras Halal, têm papel relevante nesse processo, contribuindo para a adequação das empresas às exigências do mercado halal (FAMBRAS, s.d.).

A dimensão econômica do mercado halal evidencia sua crescente relevância no cenário internacional, impulsionada tanto pela expansão da população muçulmana quanto pelo aumento do consumo em economias emergentes. Além dos consumidores do Oriente Médio, o Sudeste Asiático destaca-se como uma das regiões mais dinâmicas desse mercado, com ênfase na Indonésia, que abriga a maior população muçulmana do mundo, e na Malásia, reconhecida internacionalmente por seu sistema de regulamentação halal. Para além dos Estados de maioria muçulmana, o mercado halal também tem se expandido em países não muçulmanos, tanto pelo crescimento das comunidades islâmicas quanto pela crescente confiança de consumidores não muçulmanos na credibilidade desses produtos. Na China, por exemplo, onde há um número crescente de muçulmanos e um interesse em fortalecer relações com países islâmicos, observa-se investimento na produção e certificação halal, especialmente nos setores de alimentos, medicamentos e turismo (Jornalismo FAMBRAS, 2024).

Observa-se, portanto, que as tendências mais recentes indicam um processo contínuo de diversificação do setor halal, que tem incorporado cada vez mais aspectos relacionados à sustentabilidade, ao bem-estar animal, à rastreabilidade por meio de tecnologias digitais e ao consumo responsável, alinhando-se às exigências e expectativas dos consumidores contemporâneos em escala global. Paralelamente, a expansão do comércio eletrônico, o crescimento do turismo halal em âmbito internacional e o desenvolvimento das fintechs islâmicas evidenciam o fortalecimento desse segmento (Daher, 2026), consolidando-o como uma das áreas mais dinâmicas e promissoras do comércio mundial nas próximas décadas.



3. OPORTUNIDADES PARA O COMÉRCIO BRASILEIRO NO MERCADO HALAL


O Brasil apresenta uma presença consolidada no mercado halal internacional, sobretudo no setor agroexportador. Desde a segunda metade do século XX, o país vem fortalecendo relações comerciais com nações islâmicas importadoras de alimentos, beneficiando-se de sua elevada capacidade produtiva, da competitividade do agronegócio e do reconhecimento de seus padrões sanitários em âmbito internacional. Em relação às oportunidades de mercado, os dados da ABIA divulgados em 2026 indicam que a participação das exportações no faturamento da indústria alimentícia brasileira aumentou de 19% para 27% entre 2020 e 2025, sendo impulsionado principalmente pelos mercados islâmicos, com destaque para os países da Liga Árabe, além de Indonésia e Malásia (ABRACOMEX, 2026). Nesse contexto, a expansão dos processos de certificação halal ao longo das últimas décadas possibilitou que os produtos brasileiros atendessem às exigências religiosas e aos padrões técnicos requeridos pelos consumidores muçulmanos, contribuindo para a consolidação do Brasil como um dos principais fornecedores mundiais desse segmento.

O principal destaque do Brasil no mercado halal concentra-se nas exportações de proteínas de origem animal, com forte presença nos mercados do Oriente Médio, do Norte da África e do Sudeste Asiático. Para atender a essas exigências, as empresas brasileiras têm adaptado seus processos produtivos às normas islâmicas, incorporando práticas específicas de abate, supervisão religiosa e sistemas de rastreabilidade ao longo de toda a cadeia produtiva. Além disso, o Projeto Halal do Brasil foi criado com o objetivo de aproximar exportadores de mercados islâmicos, oferecendo suporte técnico e comercial. Nesse contexto, destaca-se a realização do 1º Fórum Halal Anuga Select Brazil, promovido neste ano, que reuniu especialistas e empresas para discutir tendências e oportunidades do mercado halal (ABRACOMEX, 2026). Nesse contexto, as certificadoras halal exercem uma função essencial na garantia de credibilidade e no acesso aos mercados de países islâmicos, como a Fambras Halal e a CDIAL Halal, que são responsáveis pela realização de auditorias, capacitações e pelo acompanhamento dos processos produtivos, assegurando sua conformidade com os princípios da Sharia (Cdial Halal, s.d.). Dessa forma, essas organizações atuam como intermediárias entre as empresas brasileiras e os importadores internacionais, contribuindo para o fortalecimento da confiança nos produtos nacionais no exterior por meio da certificação halal, fazendo com que a relação comercial entre Brasil e os países de maioria muçulmana se intensifique cada vez mais, causando em uma ampliação dos investimentos desses países em áreas como logística, infraestrutura e cooperação econômica com o Brasil.

Embora as proteínas animais permaneçam como principal produto exportado, o mercado halal oferece oportunidades crescentes para diversificação da pauta exportadora brasileira, através de setores como cosméticos naturais, produtos farmacêuticos, alimentos processados, produtos orgânicos e bebidas não alcoólicas. O aumento da demanda por bens sustentáveis e rastreáveis favorece produtos brasileiros associados à qualidade ambiental e à segurança alimentar, e a certificação halal possibilita o acesso a novos mercados consumidores em regiões com rápido crescimento populacional e econômico. O Sudeste Asiático e partes da África apresentam expansão significativa da classe média muçulmana, ampliando o consumo de alimentos industrializados, cosméticos e serviços especializados. A presença brasileira nesses mercados pode contribuir para reduzir a dependência comercial de parceiros tradicionais e ampliar a inserção internacional do país.

Por fim, o mercado halal também se apresenta como uma oportunidade fundamental para pequenas e médias empresas brasileiras, que podem inserir-se em nichos especializados de alto valor agregado, especialmente nos setores alimentício, cosmético e de produtos naturais, sendo favorecido por ações de apoio institucional, acesso à certificação e estratégias de internacionalização. Nesse contexto, instituições como o SEBRAE e a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) têm desenvolvido iniciativas de capacitação e inserção comercial voltadas ao mercado islâmico, ampliando o potencial de participação das empresas brasileiras nesse segmento em expansão. Um exemplo recente foi o 1º Fórum Halal Anuga Select Brazil, realizado este ano, no qual a diretora de Relações Institucionais da Câmara de Comércio Árabe Brasileira, Fernanda Baltazar, apresentou o Projeto Halal do Brasil, em parceria com a ApexBrasil, a fim de promover internacionalmente os produtos halal produzidos no Brasil, fortalecendo a presença do país nesse mercado (Carrieri, 2026).



4. DESAFIOS E ESTRATÉGIAS PARA EXPANSÃO


Apesar do grande potencial econômico do mercado halal, a ampliação da participação brasileira nesse setor ainda enfrenta diversos desafios estruturais, regulatórios e culturais. Para consolidar sua posição internacional e ampliar sua competitividade, o Brasil precisa desenvolver estratégias que envolvam investimentos em certificação, infraestrutura, diplomacia comercial e adaptação empresarial às exigências dos mercados islâmicos. Um dos principais obstáculos está relacionado aos custos e às exigências do processo de certificação halal (Araújo; Hamid; Rego, 2026), no qual as empresas precisam adequar seus sistemas produtivos às normas da Sharia, o que inclui mudanças em processos industriais, controle rigoroso de matérias-primas, treinamento de funcionários e auditorias periódicas. Em muitos casos, também é necessária a presença de supervisores religiosos durante etapas específicas da produção, especialmente no abate animal, podendo elevar custos operacionais, sobretudo para pequenas e médias empresas. 

Além das exigências técnicas, há diferenças culturais e regulatórias das quais as empresas brasileiras precisam verificar antes de realizar suas exportações aos Estados Islâmicos, em que muitos possuem normas específicas de importação, consumo e certificação, variando conforme interpretações religiosas e legislações nacionais. Mercados como Arábia Saudita, Malásia e Indonésia apresentam sistemas regulatórios específicos e, em alguns casos, exigem reconhecimento formal das certificadoras estrangeiras. Por exemplo, um certificado reconhecido pela SFDA saudita pode não ser aceito pela JAKIM malaia (Daher, 2026). Dessa forma, as empresas brasileiras precisam compreender tanto os requisitos técnicos quanto aspectos culturais e religiosos relacionados ao comportamento do consumidor muçulmano, para, inclusive, realizar um bom Marketing e Serviço Pós-Venda para os mercados halal internacional.

A logística internacional e a rastreabilidade da cadeia produtiva também são fatores críticos, pois devem se certificar de que os produtos halal não tenham contato com itens considerados ilícitos durante o armazenamento, transporte e distribuição (Mota; Santos; Raymundo, 2019), o que demanda estruturas logísticas segregadas, controle documental rigoroso e monitoramento contínuo da cadeia de suprimentos. Em um país de dimensões continentais como o Brasil, garantir rastreabilidade eficiente pode representar custos elevados e necessidade de modernização tecnológica. Outro ponto importante é a crescente competição internacional, em que países como Malásia, Turquia, Tailândia e Austrália vêm ampliando investimentos na economia halal, buscando consolidar-se como centros globais de produção e distribuição. Assim, o mercado brasileira deve buscar por uma constante inovação tecnológica e estratégias de inserção internacional. 

Diante desse cenário, torna-se essencial ampliar os investimentos em certificação, capacitação profissional e inteligência comercial, em que as empresas brasileiras precisam desenvolver maior conhecimento sobre o mercado halal, incluindo práticas culturais, exigências religiosas e tendências de consumo. Desse modo, programas de treinamento voltados a este mercado podem fortalecer a competitividade das organizações e facilitar sua adaptação aos padrões internacionais (Dedding, 2025). Ademais, as parcerias com países islâmicos também desempenham papel estratégico, podendo ampliar oportunidades de investimento, cooperação tecnológica e abertura de mercados, além do apoio governamental e a formulação de políticas públicas específicas que incentivem à certificação, financiamento para adequação produtiva, facilitação logística e fortalecimento da diplomacia comercial.

Por fim, um grande desafio para as empresas brasileiras ao exportarem para o mercado halal e Estados Islâmicos é a maneira como realizarão o marketing e a adaptação cultural dos produtos, precisando, assim, desenvolver estratégias de comunicação sensíveis às tradições islâmicas, respeitando valores religiosos e hábitos culturais dos consumidores (Oliveira; Rodrigues, 2025). Essas adaptações e inovações incluem adequação de embalagens, rotulagem, campanhas publicitárias e posicionamento de marca, principalmente em datas religiosas importantes, como o Ramadã, por exemplo. Assim, a construção de reputação baseada em qualidade, ética e confiabilidade pode fortalecer a presença do Brasil em um mercado global cada vez mais competitivo e diversificado.



5. CONSIDERAÇÕES FINAIS


Observa-se, portanto, que o mercado halal consolidou-se como um dos segmentos mais dinâmicos e estratégicos da economia global contemporânea, através do crescimento da população muçulmana, da ampliação do consumo internacional e da valorização de padrões de qualidade, rastreabilidade e ética produtiva. Consequentemente, a economia halal movimenta trilhões de dólares e apresenta perspectivas contínuas de expansão em áreas como alimentos, cosméticos, fármacos, turismo, logística e serviços financeiros. A partir disso, o Brasil aproveitou esta oportunidade para se inserir nos mercados internacionais, ocupando uma posição privilegiada devido à sua forte capacidade agroexportadora e à liderança mundial nas exportações de proteínas halal, além de reunir vantagens competitivas importantes, como a credibilidade sanitária, experiência em certificação internacional e relações comerciais consolidadas com países islâmicos. Além disso, a crescente diversificação da economia halal abre espaço para novos setores exportadores brasileiros, ampliando oportunidades para pequenas, médias e grandes empresas. 

Apesar destas oportunidades e vantagens, observamos também desafios para a expansão das empresas brasileiras neste mercado, como os custos de certificação, exigências regulatórias, diferenças culturais, necessidade de rastreabilidade logística e concorrência internacional, que exigem um maior planejamento estratégico e investimentos contínuos, realizando tanto adequações técnicas quanto buscando por uma maior compreensão cultural, qualificação profissional e fortalecimento da diplomacia comercial. Diante disso, torna-se fundamental a atuação conjunta entre setor privado, certificadoras, entidades de apoio empresarial e governo, com investimentos em capacitação, inovação, infraestrutura logística e promoção internacional a fim de ampliar a competitividade brasileira no mercado halal. Além disso, políticas públicas voltadas à internacionalização e à diversificação das exportações podem fortalecer a inserção do Brasil nas economias islâmicas emergentes.

O mercado halal, desse modo, representa uma oportunidade estratégica de longo prazo para o Brasil, sendo uma forma eficaz de manter sua liderança no setor de proteínas animais e consolidar-se como protagonista global da economia halal em diferentes segmentos produtivos. Com planejamento, adaptação cultural e fortalecimento institucional, o Brasil pode ampliar sua presença internacional, diversificar mercados consumidores e transformar o setor halal em um importante vetor de crescimento econômico e inserção global.



FONTES BIBLIOGRÁFICAS 


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