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AS RELAÇÕES ECONÔMICAS ENTRE A ÁFRICA E CHINA

Por: Andressa Cardoso do Nascimento



Resumo:  


O presente artigo busca compreender as relações econômicas entre a China e a África. Primeiramente, observa-se a evolução dessa cooperação, que migrou de um alinhamento político-ideológico durante a Guerra Fria para um modelo contemporâneo eminentemente econômico, focado principalmente no desenvolvimento estrutural. Dentro dessa discussão, entende-se como o histórico de colonização africano influencia a forma como as nações realizam a dinâmica com o governo chinês. Além disso, analisa-se de que forma esses investimentos chineses impactam os países africanos, examinando as assimetrias e os desafios estruturais que ocorrem dentro de alguns países, relacionados principalmente ao endividamento diante do capital recebido e à extensiva presença de mão de obra chinesa nesses Estados africanos.



1. INTRODUÇÃO


O artigo trabalha como a inserção da República Popular da China (RPC) no internacional consolidou o país como um dos principais atores de transformação econômica do mundo. Nessa estratégia de projeção de influência e poder, destaca-se a aproximação de Pequim com os países africanos. Na segunda metade do século XX essa relação era baseada em um foco específico, o alinhamentos ideológicos e apoio a movimentos de libertação nacional e anticoloniais. Já no século XXI a concentração dessa relação teve uma transição para um modelo de cooperação econômica, comercial e financeira (Alves, 2010). 

Atualmente, a China é a maior parceira comercial das nações africanas. Esse fenômeno ganhou contornos ainda mais robustos a partir de 1999 com a estratégia “go out” e, posteriormente, em 2013, com o lançamento da ambiciosa Iniciativa da Nova Rota da Seda. O modelo chinês estabeleceu uma dinâmica baseada na oferta de financiamento de infraestrutura ligados à Política de Não-Interferência, apresentando-se como uma alternativa viável e desprovida das condicionalidades políticas tradicionais ocidentais. Contudo, a rápida expansão dos fluxos de investimento e de empréstimos chineses passou a enfrentar novos desafios estruturais e críticas severas (Howell, 2025).

Diante disso, o artigo tem como objetivo analisar a evolução e os impactos das relações econômicas entre a China e a África, observando as transformações de suas lógicas de atuação desde o período da Guerra Fria até as reconfigurações financeiras e tecnológicas atuais. O trabalho estrutura-se em uma seção dedicada a uma contextualização histórica dessas relações bilaterais, seguida por uma compreensão dos fluxos de investimentos chineses e seus efeitos no continente africano. 



2. HISTÓRICO DE RELAÇÕES ENTRE CHINA E ÁFRICA


As relações entre China e África começaram a ter força após a Revolução Chinesa de 1949, um processo histórico longo que culminou na República Popular da China e o estabelecimento do comunismo, com a liderança de Mao Tsé-Tung. Assim, a partir dessa transformação dentro do país asiáticos e um contexto internacional de Guerra Fria tendo foco em duas potências, ocorreu um aumento estratégico na presença chinesa na áfrica motivada principalmente pela política, apoiando movimentos de libertação nacional e anti-coloniais que o continente africano estava passando após séculos de dominação ocidental (Alves, 2010). 

Um exemplo dessa aproximação foi durante a Conferência de Bandung, em 1955, com a aproximação da China aos países não alinhados. Nessa movimentação havia um claro interesse diplomático: um assento na Organização das Nações Unidas (ONU). Com a declaração de independência de Taiwan e sua aproximação com os Estados Unidos, a China precisava se mostrar uma potência importante dentro das relações internacionais e adquirir esse assento no Conselho de Segurança era essencial para o país. Diante disso, com o apoio aos países africanos, o Estado chinês conseguiu seu assento em 1971 e garantiu boas relações a esses países não-alinhados (Alves, 2010); Esteves et al., 2010). 

Com o fim da Guerra Fria e a adoção de um modelo desenvolvimentista, ou seja, um modelo que defende a intervenção estatal para garantir crescimento econômico, industrialização e infraestrutura, a China substituiu sua política externa africana, saindo de um viés ideológico e indo para um viés puramente econômico. Em 1999, o Partido Comunista Chinês (RPC) lançou uma estratégia de globalização conhecida como “go out”, incentivando fortemente suas empresas a investirem no exterior a fim de encontrar novos mercados e garantir o fornecimento de matérias-primas, como, por exemplos, minério de ferro, cobre e alumínio essenciais para a estrutura das edificações e fundição de aço (Esteves et al., 2010; Howell, 2025).

Esse novo padrão nas relações entre o país ásiatico e o continente africano foi institucionalizada em 2000 com a criação do Fórum de Cooperação China-África (Focac, sigla em inglês). A reunião do Focac de 2003 teve a participação da China e de 44 países africanos, além de representantes da Organização da Unidade Africana (OUA) e do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Depois desse encontro, o governo chinês concentrou-se em importar o máximo possível de matérias-primas da África, para oferecer produtos de exportação para todo o mundo. Em um caso específico, o país asiático emprestou grandes valores para a construção de infraestrutura em Angola, em troca do fornecimento de petróleo, além de promover empregos para profissionais chineses, sendo então uma via de mão dupla para os Estados (Alves, 2010). 

Nesse sentido, a China tornou-se extremamente atrativa para os africanos ao oferecer um “pacote completo”, trazendo financiamentos duradouros, doações, investimentos diretos e construção das estruturas para o desenvolvimento africano, como hospitais, escolas, estradas e ferrovias. Esse avanço nas relações comerciais se sustentou por meio de uma característica importante: a Política de Não- Interferência. Antes de entender essa questão, é importante observar momentos históricos importantes. Por séculos os países africanos sofreram a intromissão de ideias e ideologia ocidentais, principalmente de nações europeias, conforme visto na Conferência de Berlim (1884-1885) em que organizou a divisão do continente africano entre 14 países, incluindo Grã-Bretanha, França, Alemanha, Bélgica, Portugal, Itália e Espanha. A divisão veio do objetivo imperialista de obter território a fim de deter poder. Esse controle permite a extração de recursos e uma dependência econômica dos países ocidentais, deixando-os vulneráveis mediante ao desenvolvimento do comércio global (Mariano, 2022). 

Ao conquistarem suas independências e sua busca por desenvolvimento, a relação da  China com a África não exige contrapartidas ou demandas relacionadas a direitos humanos, democracia ou políticas internas, diferente de credores ocidentais e do Fundo Monetário Internacional (FMI). Isso permitiu uma confiança econômica e aumentasse os projetos africanos com a China permitindo realizar negócios altamente lucrativos em países ignorados ou embargados pelo ocidente, como, por exemplo, o Sudão (Alves, 2010). Essa nova participação dos Estados africanos indica como eles estão dispostos a mostrar um novo posicionamento dentro da economia global e desprender-se de limitações históricas. 

Portanto, a evolução das relações entre a China e o continente africano revela uma transição em suas motivações estruturais. O que começou no pós-1949 como um alinhamento político e ideológico no contexto da Guerra Fria, que foi fundamental para que Pequim consolidasse sua legitimidade internacional e garantisse seu assento na ONU em 1971,  transformou-se em uma parceria de viés econômico e pragmático, ao utilizar a estratégia “go out” e a criação do FOCAC. Ao oferecer um modelo de financiamento que combina investimentos vultosos em infraestrutura com a controversa Política de Não-Interferência, a China posicionou-se como uma alternativa viável em comparação às ideias tradicionais do Ocidente e de instituições como o FMI (Banco Central do Brasil, 2026). Assim, ao preencher o vácuo deixado pelas potências ocidentais e respeitar as soberanias locais de forma estratégica, o governo chinês não apenas garantiu o suprimento de matérias-primas essenciais para o seu próprio crescimento industrial, mas também redesenhou a geopolítica e a economia do continente africano no século XXI (Esteves et al., 2010; Alves, 2010).



3. HISTÓRICO DE RELAÇÕES ENTRE CHINA E ÁFRICA


Ao analisar a história das relações entre China e África, observa-se que o país asiático passou a ser o maior parceiro comercial do continente, além de seu maior investidor e credor isolado. O comércio entre a China e os países africanos totalizou aproximadamente US$250 bilhões (por volta de R$1,5 trilhão) em 2022. Dentre os produtos importados pela China, as matérias-primas, como petróleo e minérios, foram as principais, já em relação aos produtos exportados, o foco esteve nos bens industrializados (Howell, 2025).

De acordo com o Fórum Econômico Mundial, estima-se que existam atualmente cerca de 3 mil empresas chinesas operando em 35 países do continente africano. Os principais polos de concentração corporativa estão localizados em Angola, Nigéria, Etiópia, Sudão, República Democrática do Congo e Moçambique. Em 2022, Pequim investiu US$5 bilhões (por volta de R$30 bilhões) nas economias africanas, com o intuito de construir novas ligações de transporte, instalações de energia e no desenvolvimento da mineração. Com esses projetos financeiros, as empresas chinesas ganharam aproximadamente US$40 bilhões de lucro (cerca de R$242 bilhões) (Howell, 2025).


Figura 1 - Empréstimos da China a países africanos 2000-2023

Fonte: Boston University Global Development Policy Center, 2023


Além disso, a China possui US$134 bilhões (R$810 bilhões) em empréstimos pendentes de países africanos. Como é apontado por Jeremy Howell (2025), em uma análise das relações comerciais entre o governo chinês e os países africanos, com o intuito de ajudar no desenvolvimento, os chineses “detêm cerca de 20% de toda a dívida africana com o resto do mundo.” (Howell, 2025, n.p). Entretanto, como apresentado pela Figura 1, recentemente ocorreu uma redução desses empréstimos e investimentos nas nações africanas, o motivo principal foi a dificuldades dos países pagarem de volta o Estados chinês. Ao se dispor a emprestar o dinheiro para projetos em diversos países, como ferrovias, é de ser esperado que ao trazer transformações e ajudar na economia nacional, os devedores  tenham finanças o suficiente para pagar de volta. Porém, muitos países africanos perceberem que não conseguiram receita o suficiente dos projetos para quitar esses empréstimos, prejudicando a China financeiramente. (Howell, 2025). 

Atualmente, diante dos resultados recebidos, os investidores chineses estão sendo mais criteriosos, procurando projetos mais financiados, com resultados estáveis e positivos. Adicionalmente, o país asiático está deixando de oferecer às nações africanas grandes projetos de infraestrutura, como rodovias, ferrovias e portos, e passando a oferecer alta tecnologia, sendo redes de telecomunicações 4G e 5G, satélites espaciais, painéis solares e veículos elétricos. Esses últimos investimentos estão relacionados às tecnologias e produtos voltados a uma “economia verde” relacionados a uma agenda mais sustentável (Howell, 2025). 

É importante entender de que forma esse comércio  com a China afeta o continente africano. Como apontado anteriormente, o Estado chinês focou o máximo possível em importar matérias-primas, assim, esses produtos permitiram a exportação de grandes projetos para o mundo. Para o Estado chinês descreve que os investimentos na África permitem que os projetos consigam lucros em ambos os lados. Todavia, os projetos de construção realizados pelo Estado chinês trouxeram poucos benefícios para os moradores locais, e, consequentemente, gerou um ressentimento por parte dos africanos. A presença de empresas chinesas trazem seus próprios trabalhadores sem oferecer empregos para a população, criando uma sensação de que a mão de obra africana é apenas útil para  condições de trabalho adversas (Howell, 2025). 


Figura 2 - Lucros da China com projetos de construção na África 

Fonte: Escritório Nacional de Estatística da China, 2022


Os empréstimos para os países africanos dispararam após 2013, quando a China lançou sua iniciativa Nova Rota da Seda, para aumentar as redes comerciais em toda a África e na Ásia, o maior ponto alcançado foi em 2016, com mais de US$28 bilhões (R$169 bilhões). Essa iniciativa conhecida internacionalmente como Belt and Road Initiative (BRI)  foi lançada em 2013, tendo como o objetivo expandir sua influência global por meio de investimentos em infraestrutura, comércio e conectividade em dezenas de países. Diante disso, esse empreendimento chinês traz a promoção de grandes projetos de construção civil como forma de fomentar a integração econômica regional (Mendonça; Lopes Filho; Oliveira, 2022). 

Diante disso, a China foi acusada de oferecer empréstimos à África de forma predatória, ou seja, convencendo os governos a tomar emprestado grandes montantes de dinheiro e exigindo concessões quando surgiram os problemas de pagamento. Como consequência, os países africanos ficaram com grandes dívidas, a Angola acumulou US$18 bilhões (R$109 bilhões) em dívidas com a China. Zâmbia tem mais de US$10 bilhões (R$60 bilhões) e o Quênia, US$6 bilhões (R$36 bilhões). Esses países indicaram a dificuldade de quitar essa difícil pagar esses empréstimos, mesmo mostrando um certo aumento nos lucros. Em vários casos, a China emprestou dinheiro aos Estados africanos, relacionando os pagamentos aos seus ganhos com a exportação de matérias-primas (Howell, 2025). 

Portanto, as relações econômicas entre a China e o continente africano revelam uma dinâmica de profunda interdependência, marcada por certas assimetrias entre os Estados. A Iniciativa da Nova Rota da Seda impulsionou a infraestrutura local e consolidou Pequim como o principal parceiro comercial da região, entretanto, o modelo gerou tensões locais devido à baixa de mão de obra africana e ao endividamento de nações como Angola, Zâmbia e Quênia (Howell, 2025). Assim, a China passa a selecionar seus investimentos com maior rigor, substituindo os grandes projetos físicos pela exportação de alta tecnologia e pela transição para a economia verde. O futuro desta parceria dependerá da capacidade dos Estados africanos de garantirem que a presença chinesa se modifique no desenvolvimento socioeconômico real.



4. CONCLUSÃO


Diante do que foi apresentado, a trajetória das relações econômicas das relações China-África permite concluir que a atuação da China no continente africano foi de uma antiga retórica de solidariedade política do terceiro-mundismo para se transformar em um pilar de interdependência econômica. Ao preencher o vácuo de investimentos, Pequim garantiu o fornecimento de matérias-primas para sustentar seu próprio desenvolvimento industrial, além de reposicionar os Estados africanos no internacional como exportadores primários e importadores de bens manufaturados (Alves, 2010).

Mesmo com o apoio de capitais, que permitiu a transformações na infraestrutura de transportes e energia de nações africanas, por outro, ocorreu certo impacto nas áreas macroeconômicas e sociais. A centralização de lucros pelas corporações chinesas, que realizou uma exclusão de trabalhadores locais, desgastou o capital social da cooperação e expôs os limites dessas relações. Adicionalmente, os endividamentos que Angola, Quênia e Zâmbia sofrerem evidenciaram os riscos dos empréstimos, levando a uma revisão desse modelo de financiamento chinês. Contudo, não representa um recuo dessas relações entre China e África, mas sim uma transformação, que agora se apoia em novas tecnologias (Howell, 2025).

Conclui-se que o futuro das relações econômicas entre China e África será baseado em negociações mais críticas e com maiores estratégicas por ambas as partes. Ademais, os novos fluxos voltados à economia verde e à alta tecnologia possibilitam um desenvolvimento socioeconômico e sustentável, as lideranças precisarão apresentar tópicos de debate que protejam suas finanças, promovam a industrialização local e garantam a inclusão de suas populações nas oportunidades geradas por essa parceria global (Howell, 2025).



FONTES BIBLIOGRÁFICAS 


ALVES, André Gustavo de Miranda Pineli. Os interesses econômicos da China na África. Boletim de Economia e Política Internacional (BEPI), Brasília, DF, n. 1, p. 25-32, jan. 2010. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/53fc5d40-8c92-41d8-99b9-e45b224c470b/content. Acesso em: 30 mai. 2026 


BANCO CENTRAL DO BRASIL. Fundo Monetário Internacional (FMI). Brasília, DF: BCB, [2026?]. Disponível em: https://www.bcb.gov.br/acessoinformacao/fmi. Acesso em: 29 mai. 2026. 


ESTEVES, Paulo Luiz M. L. et al. A Cooperação Sino-Africana: tendências e impactos para a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento. Rio de Janeiro: BPC, 2010. 18 p. (BPC Policy Brief, v. 1, n. 01). Disponível em: https://www.bricspolicycenter.org. Acesso em: 30 mai. 2026. 


MARIANO, Ruan Reis. Conferência de Berlim e o mito da partilha da África. Ciência Hoje, [s. l.], 18 nov. 2022. Disponível em: https://cienciahoje.org.br/artigo/conferencia-de-berlim-e-o-mito-da-partilha-da-africa/ Acesso em: 30 mai. 2026. 


MENDONÇA, Marco Aurélio Alves de; LOPES FILHO, Carlos Renato da Fonseca Ungaretti; OLIVEIRA, Juliana Kelly Barbosa da Silva. A Nova Rota da Seda e a projeção econômica internacional da China: redes de financiamento e fluxos de Investimento Externo Direto (IED). Boletim de Economia e Política Internacional (BEPI), Brasília, DF, n. 31, abr. 2022. Disponível em: https://repositorio.ipea.gov.br/server/api/core/bitstreams/bc4f1041-dbdf-49b9-b227-b7e2229764ea/content.  Acesso em: 29 mai. 2026. 


HOWELL, Jeremy. O que há por trás das mudanças nos investimentos bilionários da China na África. BBC News Brasil, [s. l.], 14 mar. 2025. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c5ye24dd0w9o. Acesso em: 30 mai. 2026. 


 
 
 

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