GEOPOLÍTICA DA ATENÇÃO: PLATAFORMAS DIGITAIS, ALGORITMOS E PODER NO SÉCULO XXI
- Liga de Comércio Internacional PUC-Rio

- 11 de jun.
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Por: Mateus Dias Viana

Resumo:
O presente artigo defende que a atenção humana consolidou-se como o recurso estratégico mais valioso do sistema internacional contemporâneo. Em um cenário de saturação informacional, plataformas transnacionais como Meta, X e TikTok operam como verdadeiras infraestruturas globais de poder. Mobilizando conceitos de autores como Byung-Chul Han e Guy Debord, o texto demonstra que o espetáculo digital produz indivíduos exaustos e altamente manipuláveis. Sob a ótica do capitalismo de vigilância de Shoshana Zuboff, argumenta-se que essas redes extraem dados comportamentais em massa para prever e alterar condutas, transformando algoritmos de recomendação em vetores de um "soft power 2.0" capaz de moldar narrativas públicas de forma invisível. O embate geopolítico entre os Estados Unidos e a China pelo controle do TikTok é analisado como o microcosmo dessa nova era. Conclui-se que o maior desafio contemporâneo das Relações Internacionais é limitar a assimetria algorítmica e garantir a soberania cognitiva das nações frente às grandes corporações tecnológicas.
1. INTRODUÇÃO
O sistema internacional contemporâneo atravessa uma reconfiguração estrutural cujas bases operam invisivelmente sob a superfície das interações cotidianas. Se nos séculos XIX e XX a disputa hegemônica concentrou-se na posse de territórios, rotas comerciais, recursos energéticos e arsenais nucleares, o século XXI assiste à emergência de um novo recurso estratégico, escasso e ferozmente disputado: a atenção humana. Em uma economia hiperconectada, corporações transnacionais que operam plataformas digitais — como Meta, Alphabet, X e ByteDance, deixaram de ser meros intermediários tecnológicos para se consolidarem como infraestruturas globais de poder. Tais plataformas não são arenas neutras de debate público; são ecossistemas arquitetados para extrair, reter e mercantilizar o engajamento, redefinindo as fronteiras da influência política, econômica e cultural.
O caso do TikTok, epicentro de uma profunda disputa geopolítica e tecnológica entre os Estados Unidos e a República Popular da China, atua como um microcosmo emblemático dessa nova realidade. A ameaça de banimento do aplicativo por Washington, sob a justificativa de segurança nacional, transcende o protecionismo comercial clássico, revelando a ansiedade estatal diante de uma infraestrutura informacional estrangeira capaz de moldar a cognição e o comportamento de dezenas de milhões de cidadãos. O debate em torno do TikTok desnuda a premissa central deste artigo: o controle algorítmico da atenção constitui uma nova e decisiva forma de exercício de poder.
O presente artigo utiliza metodologia qualitativa de caráter exploratório, fundamentada em revisão bibliográfica interdisciplinar e análise crítica do caso TikTok no contexto das disputas geopolíticas contemporâneas. Para sustentar a hipótese central, o texto articula contribuições teóricas da economia política internacional, da filosofia política e da sociologia da comunicação, mobilizando autores como Byung-Chul Han, Guy Debord, Shoshana Zuboff, Joseph Nye, Manuel Castells e Michel Foucault.
Este artigo argumenta que a atenção humana, capturada e direcionada por algoritmos de recomendação, atua como o alicerce de uma engrenagem que redistribui influência entre Estados, megacorporações e atores não-estatais. A disputa pela arquitetura da rede é, fundamentalmente, uma disputa pela capacidade de construir narrativas e moldar percepções em escala planetária. Para sustentar esta tese, o texto estrutura-se em cinco eixos analíticos, seguidos de um estudo de caso e considerações finais. Inicialmente, investiga-se a economia da atenção sob a ótica da exaustão e do espetáculo, avançando para a lógica extrativista do capitalismo de vigilância. Em seguida, analisa-se como os algoritmos operam como ferramentas de um soft power repaginado, culminando na instrumentalização dessas plataformas nas guerras narrativas contemporâneas. Por fim, o embate sino-americano sobre o TikTok é dissecado para evidenciar que a geopolítica atual depende inexoravelmente da governança e do controle da infraestrutura cognitiva global.
2. A ECONOMIA DA ATENÇÃO COMO ARENA GEOPOLÍTICA
A conceptualização da “economia da atenção” pressupõe que, em um ambiente de abundância informacional absoluta, o recurso que se torna escasso e valioso é a capacidade humana de processar essas informações. Contudo, essa premissa econômica adquire densidade geopolítica quando compreendida como um mecanismo de subjetivação e controle. O espetáculo contemporâneo, longe de ser apenas uma distração fortuita, é o princípio organizador dessa economia. Guy Debord, em A Sociedade do Espetáculo, alertava que o espetáculo não é um conjunto de imagens, mas uma relação social entre pessoas mediada por imagens. No ecossistema digital, o espetáculo atinge sua forma mais sofisticada: ele deixa de ser uma transmissão massiva e unidirecional para fragmentar-se em feeds algorítmicos hiperpersonalizados, nos quais o indivíduo atua simultaneamente como espectador e produtor da mercadoria informacional.
Essa dinâmica de produção e consumo incessante gera o que Byung-Chul Han diagnostica como a Sociedade do Cansaço. A hiperconectividade e a exigência constante de engajamento transformam a coerção externa em autoexploração disciplinada. O sujeito digital, saturado por estímulos permanentes, perde gradualmente a capacidade de contemplação prolongada e pensamento crítico denso. Em No Enxame: Perspectivas do Digital, Han demonstra que a multidão digital não forma um coletivo político estruturado, mas um “enxame” de indivíduos dispersos, conectados apenas por afetos instantâneos e reativos.
A análise foucaultiana aprofunda significativamente essa discussão. Para Michel Foucault, o poder moderno não opera prioritariamente pela repressão direta, mas pela administração dos corpos, dos comportamentos e das subjetividades. Em obras como Vigiar e Punir, Foucault demonstra que o poder disciplinar funciona de maneira difusa, invisível e internalizada, produzindo sujeitos que vigiam a si próprios. No ambiente digital, os algoritmos ampliam essa lógica disciplinar para uma escala inédita: o usuário passa a adaptar espontaneamente sua linguagem, aparência e comportamento às métricas de visibilidade impostas pelas plataformas. O mecanismo de vigilância deixa de estar restrito às instituições clássicas — como prisões, escolas ou quartéis — e passa a integrar o cotidiano digital de bilhões de indivíduos.
A intersecção entre o espetáculo descrito por Debord, a exaustão analisada por Han e os mecanismos disciplinares de Foucault transforma a economia da atenção em uma arena política de profunda vulnerabilidade. Sujeitos constantemente monitorados, estimulados e direcionados por arquiteturas algorítmicas tornam-se mais suscetíveis à manipulação simbólica e emocional. A atenção, portanto, deixa de ser apenas um ativo econômico e converte-se em um recurso estratégico de poder. Atores que controlam os meios de captura da atenção possuem, em última instância, os meios de modular percepções coletivas, influenciar processos políticos e reorganizar disputas geopolíticas em escala global.
3. CAPITALISMO DE VIGILÂNCIA E A INFRAESTRUTURA DO PODER DIGITAL
A assimetria de poder no ambiente informacional contemporâneo encontra sua base material na arquitetura descrita por Shoshana Zuboff como capitalismo de vigilância. Se o capitalismo industrial apropriou-se da natureza para convertê-la em mercadoria, essa nova etapa do capitalismo apropria-se da experiência humana, transformando comportamentos, emoções e padrões cognitivos em dados exploráveis economicamente.
Plataformas como Google, Meta e TikTok operam como estruturas massivas de coleta e processamento comportamental. Cada clique, curtida, tempo de permanência e interação emocional converte-se em excedente comportamental destinado à previsão e modificação futura do comportamento humano.
A perspectiva foucaultiana revela que esse modelo não constitui apenas um avanço tecnológico, mas uma transformação estrutural das formas de governamentalidade contemporânea. O poder algorítmico opera por meio da vigilância contínua, produzindo indivíduos permanentemente rastreáveis e classificáveis. Diferentemente das sociedades disciplinares clássicas, nas quais o poder se concentrava em instituições delimitadas, o ambiente digital dissolve a vigilância em uma rede contínua e descentralizada. O controle deixa de ser episódico e torna-se permanente.
Nesse contexto, os algoritmos de recomendação funcionam como arquiteturas invisíveis de escolha. Eles determinam quais conteúdos alcançam visibilidade, quais narrativas circulam e quais discursos permanecem marginalizados. A capacidade de modular comportamento em larga escala, inicialmente direcionada ao lucro publicitário, rapidamente adquiriu relevância geopolítica. O modelo de negócios baseado no engajamento favorece sistematicamente conteúdos polarizadores, emocionais e sensacionalistas, ampliando tensões sociais e enfraquecendo consensos democráticos.
A dimensão internacional dessa infraestrutura digital é profunda. O controle dos fluxos globais de dados confere às corporações tecnológicas um poder estrutural comparável ao de grandes Estados-nação. Quem domina os repositórios de dados e os códigos-fonte dos algoritmos possui capacidade de interferir na opinião pública, reorganizar prioridades políticas e moldar o ambiente cognitivo em que sociedades deliberam. A infraestrutura do capitalismo de vigilância transforma-se, assim, em infraestrutura central da disputa política e geopolítica do século XXI.
4. ALGORITMOS COMO INSTRUMENTOS DE PODER: SOFT POWER 2.0
Historicamente, a capacidade de um Estado influenciar outros atores sem recorrer à coerção militar foi conceituada por Joseph Nye como soft power. Cultura, valores políticos e diplomacia atuavam como mecanismos de atração e persuasão. Contudo, a ascensão das plataformas digitais redefine profundamente essa dinâmica, produzindo aquilo que pode ser compreendido como um Soft Power 2.0.
Nesse novo paradigma, a influência não depende apenas da atratividade cultural explícita, mas da capacidade invisível de organizar fluxos de informação. O algoritmo substitui parcialmente os antigos instrumentos clássicos de mediação cultural. O poder deixa de operar apenas pela sedução simbólica evidente e passa a atuar pela definição silenciosa do que será visto, consumido e debatido.
Manuel Castells argumenta que o poder nas sociedades em rede reside na capacidade de programar fluxos comunicacionais. Quem controla os nós centrais das redes possui capacidade de conectar ou desconectar informações conforme interesses estratégicos. O modelo algorítmico do TikTok representa o ápice dessa lógica: a plataforma não organiza apenas relações sociais, mas determina autonomamente os conteúdos que alcançarão relevância pública.
Sob uma perspectiva foucaultiana, o algoritmo atua como uma tecnologia de governo das condutas. Ele organiza desejos, direciona afetos e condiciona padrões de comportamento sem recorrer à coerção explícita. O poder torna-se mais eficiente precisamente porque é percebido como neutro ou invisível.
O funcionamento do TikTok ilustra de maneira clara essa transformação. Investigações recentes apontam diferenças significativas na circulação de conteúdos relacionados a temas geopoliticamente sensíveis, evidenciando que a neutralidade técnica das plataformas constitui um mito. O algoritmo opera como um mediador político silencioso, influenciando percepções coletivas e moldando imaginários sociais em escala transnacional.
5. GUERRAS NARRATIVAS E DIPLOMACIA MIDIÁTICA NO SISTEMA INTERNACIONAL
A infraestrutura digital contemporânea tornou-se um espaço central para disputas narrativas entre Estados e atores transnacionais. O conceito clássico de guerra informacional expandiu-se para uma condição permanente de conflito simbólico, no qual plataformas digitais funcionam como instrumentos de influência geopolítica.
Campanhas de desinformação, operações de influência coordenadas e manipulação algorítmica passaram a integrar estratégias contemporâneas de política externa. O ambiente digital recompensa conteúdos emocionalmente intensos, favorecendo a circulação de polarização, indignação e radicalização política.
As eleições presidenciais dos Estados Unidos, os processos eleitorais brasileiros e o conflito na Ucrânia demonstram que a disputa pela percepção pública tornou-se tão relevante quanto disputas territoriais tradicionais. Redes sociais operam simultaneamente como instrumentos de mobilização política e como vetores de fragmentação institucional.
Nesse contexto, emerge o conceito de sharp power, caracterizado pelo uso ofensivo da informação para manipular ambientes políticos estrangeiros. Diferentemente do soft power, baseado na atração cultural, o sharp power busca desestabilizar, confundir e fragmentar sociedades adversárias por meio da manipulação informacional.
As plataformas digitais oferecem a infraestrutura ideal para essa lógica. A combinação entre vigilância comportamental, algoritmos de recomendação e engajamento emocional cria um ambiente altamente vulnerável à instrumentalização política. A guerra contemporânea desloca-se progressivamente do campo militar para o domínio cognitivo e narrativo.
6. O CASO TIKTOK: MICROCOSMO DA DISPUTA GEOPOLÍTICA DIGITAL
O conflito em torno do TikTok representa uma síntese das transformações discutidas ao longo deste artigo. O aplicativo consolidou-se como a primeira plataforma não ocidental capaz de disputar a hegemonia global da atenção digital, provocando tensões profundas entre Estados Unidos e China.
A preocupação de Washington fundamenta-se no potencial de coleta massiva de dados e na possibilidade de manipulação algorítmica por parte da ByteDance. A hipótese de que o governo chinês possa utilizar a plataforma como instrumento estratégico evidencia que o controle da infraestrutura digital passou a ser interpretado como questão de segurança nacional.
Entretanto, o debate revela uma contradição estrutural: as práticas criticadas no TikTok — vigilância massiva, coleta de dados e manipulação comportamental — também caracterizam plataformas ocidentais como Meta e Google. O problema central não reside apenas na existência dessas práticas, mas em quem controla os sistemas algorítmicos globais.
Sob a ótica foucaultiana, o caso TikTok evidencia uma disputa pelo monopólio das tecnologias contemporâneas de governo das subjetividades. A capacidade de modular atenção coletiva, direcionar comportamentos e organizar fluxos narrativos tornou-se um dos principais instrumentos de poder internacional.
O embate sino-americano demonstra que a disputa geopolítica contemporânea não se limita mais ao controle territorial ou econômico tradicional. O verdadeiro conflito concentra-se na governança das infraestruturas cognitivas que organizam a experiência cotidiana das sociedades conectadas.
7. CONCLUSÃO
A geopolítica do século XXI ultrapassa as fronteiras físicas tradicionais e desloca-se progressivamente para o domínio da cognição humana. A economia da atenção, sustentada pelas estruturas do capitalismo de vigilância, consolidou plataformas digitais e algoritmos como instrumentos centrais de poder global.
A articulação teórica entre Debord, Han, Zuboff, Castells, Nye e Foucault permite compreender que o ambiente digital contemporâneo não opera apenas como espaço tecnológico, mas como mecanismo de produção de subjetividades, organização política e disputa geopolítica. O poder algorítmico reorganiza percepções, direciona afetos e influencia comportamentos coletivos em escala sem precedentes.
O caso TikTok evidencia que o controle da infraestrutura digital tornou-se elemento estratégico das relações internacionais contemporâneas. A disputa entre Estados Unidos e China revela que a soberania do século XXI depende crescentemente da capacidade de controlar fluxos informacionais, dados e arquiteturas algorítmicas.
Diante desse cenário, emerge a necessidade de refletir sobre o conceito de soberania cognitiva: a capacidade de sociedades preservarem autonomia decisória frente à influência invisível de plataformas digitais e sistemas algorítmicos. Sem mecanismos eficazes de governança global das infraestruturas digitais, o sistema internacional tende a aprofundar assimetrias de poder cada vez mais concentradas nas mãos de corporações tecnológicas e grandes potências capazes de administrar a atenção humana em escala planetária.
FONTES BIBLIOGRÁFICAS
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