A Erosão Da Hegemonia Do Dólar: Caminhos E Desafios Da Desdolarização Do Comércio Internacional
- Liga de Comércio Internacional PUC-Rio

- 17 de dez. de 2025
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Por: Mateus Dias Viana, Bento Pimentel, Juliana Sousa

Resumo:
O presente artigo analisa o processo de desdolarização do comércio internacional, fenômeno que reflete uma gradual transição do sistema monetário global, historicamente centralizado no dólar americano, para um contexto mais multipolar e diversificado. A hegemonia do dólar, consolidada no pós-Segunda Guerra Mundial com os Acordos de Bretton Woods, passou a ser questionada diante da ascensão de novas potências econômicas, da intensificação das sanções unilaterais e do fortalecimento de mecanismos financeiros alternativos. Nesse cenário, países como China, Rússia, Índia e Brasil têm buscado promover o uso de moedas locais e sistemas de pagamento independentes, redefinindo os fluxos de poder na economia internacional.
1. INTRODUÇÃO
Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, o dólar estadunidense consolidou-se como a moeda de referência do sistema financeiro internacional, sustentando a estrutura econômica global e o poder dos Estados Unidos. Esse domínio foi institucionalizado com o Acordo de Bretton Woods (1944), que estabeleceu o dólar como principal moeda de conversão e reserva mundial, vinculada ao ouro. Mesmo após o colapso desse sistema em 1971, com a decisão de Richard Nixon de suspender a conversibilidade do dólar em ouro, a moeda americana manteve sua centralidade nas transações internacionais e nas reservas cambiais de grande parte dos países.
Entretanto, nas últimas décadas, observa-se um movimento de contestação a essa hegemonia. Diversos países têm buscado alternativas ao dólar para reduzir sua dependência da política monetária dos EUA e mitigar os riscos associados às sanções econômicas. A ascensão da China como potência comercial, a criação de mecanismos financeiros regionais e o aumento das tensões geopolíticas, especialmente após a guerra na Ucrânia, intensificaram o debate sobre a desdolarização do comércio internacional. Assim, compreender os impactos e desafios desse processo é fundamental para analisar as novas dinâmicas do poder econômico global.
2. A HEGEMONIA MONETÁRIA DOS ESTADOS UNIDOS
A consolidação do dólar como principal moeda de reserva e transação internacional é um dos pilares centrais da ordem econômica liberal estruturada no pós-Segunda Guerra Mundial. O Acordo de Bretton Woods (1944) instituiu um sistema no qual o dólar foi fixado ao ouro, enquanto as demais moedas eram indexadas ao dólar, conferindo aos Estados Unidos uma posição sem precedentes na economia mundial. Tal arranjo permitiu aos EUA exercer o que Charles Kindleberger (1973) descreve como o papel de provedor de estabilidade sistêmica, garantindo liquidez e previsibilidade ao sistema global, mas também assegurando a centralidade de sua moeda como base de confiança internacional.
Segundo Robert Keohane (1984), a hegemonia americana não se limitou à esfera militar, mas foi consolidada sobretudo pela capacidade de estruturar instituições e normas econômicas internacionais, como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, mecanismos criados sob forte influência dos interesses norte-americanos. Essa liderança institucional reforçou o que Susan Strange (1988) denomina poder estrutural, sendo a habilidade de moldar o ambiente dentro do qual outros Estados e atores operam, determinando as regras do jogo econômico global.
O domínio monetário dos Estados Unidos é um exemplo expressivo desse poder estrutural. O dólar não é apenas uma moeda de troca, mas também um instrumento de política externa e de coerção econômica, utilizado em contextos de sanções e disputas geopolíticas. Como argumenta Benjamin Cohen (2015), a moeda estadunidense atua como um símbolo de soberania financeira global, assegurando aos EUA um “privilégio exorbitante”, expressão cunhada por Valéry Giscard d’Estaing - que lhes permite financiar déficits, emitir dívida e manter influência global sem enfrentar as mesmas restrições cambiais impostas a outros países.
Esse privilégio tem raízes na confiança institucional e na profundidade dos mercados financeiros norte-americanos. O dólar é amplamente aceito por investidores e bancos centrais, representando 58,9% das reservas cambiais mundiais em 2024, segundo dados do FMI (2024). Contudo, essa predominância vem sendo gradualmente contestada. Mudanças estruturais na economia mundial, como a ascensão da China e de outros países emergentes, vêm criando um ambiente mais multipolar, em que o monopólio monetário americano é progressivamente desafiado.
Nos anos 2000, com o fortalecimento do euro e a criação de mecanismos regionais alternativos, como o Sistema de Pagamentos em Moeda Local (SML) do Mercosul e o CIPS chinês, iniciou-se um movimento de diversificação monetária que visava reduzir a dependência do dólar. Autores como Barry Eichengreen (2011) e Paola Subacchi (2017) apontam que essa transição não se dá de forma abrupta, mas por meio de ajustes graduais nas preferências institucionais e estratégicas dos Estados, que buscam maior autonomia frente às flutuações da política monetária dos EUA e às sanções econômicas unilaterais.
A guerra na Ucrânia (2022) e o consequente bloqueio de reservas russas em dólar reforçaram a percepção de vulnerabilidade associada à dependência da moeda americana. Como observa The Economist (2023), o congelamento de ativos e o uso do sistema SWIFT como ferramenta de pressão política aceleraram as discussões sobre desdolarização, especialmente entre os países do Sul Global e os membros do BRICS, que passaram a defender a criação de instrumentos financeiros alternativos para transações bilaterais.
Portanto, a hegemonia monetária dos Estados Unidos, embora ainda sólida, enfrenta pressões crescentes num contexto de reconfiguração geoeconômica. O dólar continua a ser o eixo do sistema financeiro internacional, mas sua supremacia é hoje acompanhada de desafios estruturais que sinalizam um processo de multipolarização monetária. A próxima seção explorará como essa transformação se manifesta nas estratégias de países emergentes - em especial, nas iniciativas lideradas pela China e pelo bloco BRICS, que buscam redefinir as bases do comércio internacional.
3. AS ESTRATÉGIAS DE DESDOLARIZAÇÃO
Ainda nos anos 70, com a criação dos sistemas monetários essenciais para a transação financeira no mundo, como o CHIPS, sistema de pagamento feito em dólar americano e funcionava de forma global, e o SWIFT, uma rede segura de comunicação entre as instituições financeiras, incluindo transferência de recursos e composta por mais de 200 países, tornou-se evidente o domínio dos Estados Unidos sobre o sobre o sistema SWIFT. Esse controle permite ao país impor sanções financeiras ou bloquear transações que envolvam países sancionados, como ocorreu com a Rússia, que foi excluída do sistema após os ataques de fevereiro de 2022 contra a Ucrânia.
Recentemente, esse domínio das transações monetárias pelos EUA vem sendo questionado por outros países. Representantes dos presidentes do Brasil e da China, por exemplo, compartilham do mesmo questionamento. Em uma recente visita à Indonésia, o presidente do Brasil citou: "Nós queremos multilateralismo e não unilateralismo. Nós queremos democracia comercial e não protecionismo. [...] Tanto a Indonésia quanto o Brasil têm interesse em discutir a possibilidade de comercialização entre nós dois ser com as nossas moedas. Essa é uma coisa que nós precisamos mudar".
Nesse sentido, os BRICS, grupo de países emergentes, que tem como membros fundadores Brasil, China, Rússia e Índia, anseiam por uma desdolarização parcial de suas negociações e pensam como possíveis soluções, como por exemplo, a realização com suas moedas próprias. Essa busca é motivada tanto pela vulnerabilidade gerada por instabilidades na política monetária, quanto por questões geopolíticas, como o risco de ser isolado financeiramente.
Como outra forma de alternativa, novas moedas vêm sendo consideradas para as negociações. A China, por exemplo, tem atuado no cenário internacional auxiliando países cujas economias estão em desequilíbrio os financiando com Yuan, moeda chinesa. O país já financiou a Rússia, uma de suas maiores aliada e também chegou a financiar a Argentina, com o objetivo de aumentar ainda mais sua influência, já que atua como o principal competidor direto da hegemonia dos Estados Unidos.
Em contrapartida, o presidente norte-americano Donald Trump já deixou expresso que a iniciativa do BRICS de descentralizar suas negociações utilizando moedas alternativas ao dólar acarretará em novas taxações sobre os produtos desses países. Assim, cada nação avalia cuidadosamente como se posicionar nesse complexo jogo de xadrez financeiro global.
Além dessas dinâmicas, observa-se também um esforço crescente na criação de sistemas de pagamentos alternativos capazes de competir com a predominância norte-americana. A Rússia, por exemplo, desenvolveu o SPFS após enfrentar sanções em 2014, ampliando sua rede para países dispostos a operar fora do SWIFT. Paralelamente, a China tem promovido o CIPS, sistema voltado principalmente para transações internacionais em yuan, e que já conta com a participação de bancos da Ásia, África e Oriente Médio. Embora ainda tenham alcance inferior ao do SWIFT, tais iniciativas evidenciam um movimento coordenado de países que buscam maior autonomia operacional no sistema financeiro global, reduzindo a vulnerabilidade à pressão externa dos EUA.
Outro fator determinante para esse processo é o avanço das moedas digitais emitidas por bancos centrais, especialmente em economias emergentes. A China tem liderado esse desenvolvimento com o e-CNY, que já participou de testes internacionais no projeto mBridge, envolvendo também Hong Kong, Tailândia e Emirados Árabes Unidos. A adoção de moedas digitais soberanas pode, no futuro, facilitar transações internacionais sem a necessidade de intermediários vinculados ao dólar, ampliando a capacidade dos Estados de negociar dentro de redes financeiras mais descentralizadas e menos suscetíveis a sanções. Esse movimento reforça a tendência de fragmentação do sistema monetário tradicional, ao mesmo tempo em que abre espaço para formas inovadoras de circulação monetária.
Além disso, diversos acordos regionais e bilaterais vêm ganhando força como mecanismos de desdolarização gradual. Na América Latina, por exemplo, discute-se com maior intensidade a ampliação do uso de moedas locais para o comércio intra-regional, especialmente no âmbito do Mercosul e de suas parcerias estratégicas com a Ásia. No Sudeste Asiático, iniciativas como o Local Currency Settlement da ASEAN vêm reduzindo custos cambiais e incentivando liquidações diretas entre países, demonstrando que a diversificação monetária é uma pauta crescente entre mercados emergentes. Essas políticas mostram que, embora a substituição do dólar não ocorra de forma abrupta, há um movimento de adaptação progressiva das economias para um cenário internacional mais multipolar e menos dependente da moeda norte-americana.
4. LIMITES E DESAFIOS
A desdolarização avança de forma gradual, mas ainda encontra obstáculos estruturais que limitam sua consolidação no curto e médio prazo. O primeiro desafio refere-se à confiança sistêmica no dólar, que permanece superior à das alternativas existentes. Conforme argumenta Eichengreen (2011), a primazia do dólar deriva da combinação entre instituições estáveis, liquidez profunda e mercados de capitais altamente desenvolvidos, o que garante previsibilidade e reduz riscos para governos, bancos centrais e investidores privados. Esse ambiente institucional robusto não encontra equivalência plena no yuan, no euro ou em moedas regionais emergentes.
Outro limite importante resulta da estabilidade macroeconômica norte-americana. Relatórios recentes do FMI (2025) indicam que os Estados Unidos apresentaram inflação acima de 10 por cento apenas uma vez desde meados do século XX, reforçando a credibilidade internacional da moeda norte-americana. Em contraste, economias que buscam promover alternativas ao dólar, como China, Rússia, Índia e Brasil, enfrentam volatilidades cambiais, ciclos inflacionários mais acentuados ou fragilidades institucionais que reduzem a atratividade de suas moedas em operações internacionais de grande escala.
Há também um componente de inércia estrutural no sistema financeiro global. Krugman (1980) explica que redes monetárias internacionais são marcadas por forte dependência da trajetória, de modo que a moeda dominante tende a permanecer central não por ser necessariamente a mais eficiente, mas porque todos os atores econômicos já estão adaptados a ela. A maior parte das dívidas soberanas, contratos comerciais, reservas internacionais e derivativos globais permanece denominada em dólar. A substituição dessa infraestrutura exigiria custos logísticos, jurídicos e operacionais expressivos, o que reduz o incentivo à adoção de novas moedas.
No plano geopolítico, a cooperação entre potências emergentes também apresenta limitações. Subacchi (2017) destaca que a criação de uma alternativa sólida ao dólar demandaria convergência política e institucional entre países que possuem interesses muitas vezes conflitantes. Divergências estratégicas entre China e Índia, a instabilidade política na Rússia e a fragmentação institucional do Sul Global dificultam a formação de um bloco monetário coeso. No caso do BRICS, iniciativas como a criação de uma moeda comum enfrentam barreiras de governança, assimetria econômica e ausência de mecanismos fiscais compartilhados.
Outro aspecto relevante refere-se à inexistência de substitutos perfeitos. O yuan chinês continua limitado por controles de capitais e baixa conversibilidade, o que impede sua aceitação plena como moeda de reserva. O euro, embora consolidado, sofre com a falta de integração fiscal da União Europeia e com a incapacidade de agir como âncora monetária isolada em crises globais, fatores que reduzem seu papel como alternativa hegemônica.
A segurança jurídica e institucional também constitui obstáculo central. Investidores e Estados buscam ambientes regulatórios previsíveis, proteção à propriedade financeira e independência do banco central. A percepção de risco institucional em economias emergentes mantém a preferência global pela moeda estadunidense, cuja infraestrutura financeira e jurídica continua mais confiável.
Por fim, a transição para um sistema multipolar envolve desafios tecnológicos e operacionais. A interoperabilidade entre sistemas de pagamento, a padronização de contratos financeiros internacionais e a criação de plataformas alternativas ao SWIFT, como o CIPS chinês, ainda estão em fase de expansão e não apresentam alcance global suficiente.
Diante desses elementos, a literatura especializada indica que a desdolarização tende a ampliar a diversidade monetária no sistema internacional, mas não a eliminar a centralidade do dólar. Assim, a curto prazo, o cenário mais plausível é a coexistência entre diversificação e persistência estrutural.
5. CONCLUSÃO
A análise da desdolarização do comércio internacional evidencia que o sistema monetário global atravessa um processo de transformação gradual, impulsionado por tensões geopolíticas, avanços tecnológicos e pela busca de maior autonomia financeira por parte de economias emergentes. Ainda que iniciativas como o uso de moedas locais em transações bilaterais, a expansão de sistemas alternativos de pagamento e o fortalecimento de blocos como o BRICS apontem para uma crescente diversificação monetária, a hegemonia do dólar permanece sustentada por pilares institucionais e econômicos profundamente enraizados.
A literatura especializada demonstra que a posição dominante do dólar não decorre apenas do poder econômico dos Estados Unidos, mas da confiança sistêmica acumulada ao longo de décadas, dos mercados financeiros sofisticados e da estabilidade política e regulatória norte-americana. Esses fatores continuam a oferecer vantagens que moedas concorrentes não conseguem replicar plenamente. Ao mesmo tempo, obstáculos como a fragmentação política entre potências emergentes, a falta de conversibilidade plena de moedas alternativas e a ausência de instituições multilaterais robustas dificultam uma substituição rápida do dólar.
Portanto, o cenário mais provável para os próximos anos não é o declínio abrupto da moeda estadunidense, mas a consolidação de um sistema híbrido, no qual diferentes moedas ganham relevância em contextos específicos, ao passo que o dólar mantém sua centralidade estrutural. A desdolarização, assim, configura-se menos como uma ruptura imediata e mais como um processo contínuo de redistribuição de poder no sistema econômico internacional.
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