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Make in India: Estratégias Industriais e Repercussões no Comércio Exterior

Por: Luciana Crivellari



Resumo


Lançado em 2014, o Make in India é uma política industrial que visa transformar a Índia em um centro global de manufatura, promovendo o investimento estrangeiro, a geração de empregos e o aumento das exportações. A iniciativa resultou em avanços como a atração de empresas multinacionais, estímulo à produção doméstica e redução de importações em setores estratégicos. Contudo, desafios estruturais persistem, como a dependência de insumos importados, baixa sofisticação tecnológica e deficiências logísticas, que limitam a competitividade global da indústria indiana. Apesar disso, a política contribuiu para inserir a Índia nas cadeias globais de valor. A continuidade e adaptação da iniciativa são essenciais para fortalecer a base industrial do país. O aprimoramento da política será determinante para consolidar a Índia como uma potência manufatureira no comércio internacional.


  1. Introdução


Lançado em 2014 pelo primeiro-ministro Narendra Modi, o programa Make in India é uma política industrial que tem por objetivo transformar a Índia em um centro global de manufatura, estimular investimentos estrangeiros diretos, promover a exportação de bens manufaturados, reduzir a dependência de importações e criar empregos (IEDI, 2018). Essa iniciativa governamental gerou diversos impactos positivos ao comércio internacional do país, como o aumento das exportações de produtos manufaturados e incentivos à produção domésticos, além de gerar uma queda nas importações em setores onde a produção interna foi estimulada, como eletrônicos, e atrair Investimento Estrangeiro Direto (IED). Consequentemente, a Índia flexibilizou regulações em diversos setores, como empresas globais que investiram em fábricas locais, criando cadeias de suprimento mais integradas ao comércio global.

Contudo, o programa enfrenta diversos desafios no equilíbrio da balança comercial da Índia. Apesar dos avanços na produção nacional, o país ainda mantém uma significativa dependência de insumos importados, que compromete os objetivos de autossuficiência industrial, uma vez que grande parte da manufatura local ainda depende de componentes vindos do exterior. Além disso, muitos setores industriais indianos continuam apresentando baixa sofisticação tecnológica, o que limita a capacidade de competir globalmente e restringe o valor agregado dos produtos exportados. Esses fatores combinados enfraquecem o impacto pleno do Make in India sobre a redução das importações e impedem uma melhora mais expressiva no saldo da balança comercial do país.


  1. Objetivos e Estratégias do “Make in India”


Nas últimas décadas, a economia indiana passou por uma grande mudança, com a atividade agrícola perdendo espaço para o setor de serviços, representado por áreas como a de tecnologia da informação. Ademais, a manufatura no país, além de apresentar baixa produtividade, representou apenas 16% do PIB, um desempenho inferior ao observado em outras nações asiáticas com nível de desenvolvimento semelhante. Para equilibrar esses números, desde 2014, o governo do primeiro-ministro Narendra Modi implementou uma série de iniciativas com o objetivo de transformar a manufatura no principal motor do crescimento econômico da Índia, buscando posicionar o país como um polo global de produção industrial (IEDI, 2018).

Além das políticas focadas ao fortalecimento da indústria de transformação, o programa Make in India também engloba uma série de iniciativas destinadas a estimular o investimento estrangeiro direto (IDE), assegurar a proteção da propriedade intelectual por meio do Creative India, simplificar os trâmites para a realização de negócios e elevar a posição da Índia no ranking de Facilidade de Fazer Negócios do Banco Mundial (IEDI, 2018). Outras ações também visam impulsionar a geração de empregos, fomentar a inovação, desenvolver as habilidades da força de trabalho indiana e expandir a infraestrutura nacional, com destaque para a implantação de corredores industriais e a construção de cidades inteligentes dotadas de tecnologia de ponta e comunicação de alta velocidade.

Contudo, para que o programa atinja seus objetivos e o país consiga se firmar como uma potência industrial em meio às transformações profundas trazidas pela Indústria 4.0, a Índia precisa enfrentar diversos desafios. Entre os principais, destacam-se: a ausência de uma cultura consolidada de qualidade em processos, produtos e serviços; fragilidades na infraestrutura; baixa inserção das tecnologias da informação no setor industrial; inclusão digital limitada; níveis insuficientes de escolaridade em ampla parcela da população; escassez de profissionais qualificados para atuar em ambientes produtivos avançados; e o baixo investimento privado em atividades de pesquisa e desenvolvimento.

Com o objetivo de superar tais desafios, o governo indiano tem adotado uma série de ações proativas, como o programa Digital India, a Missão Nacional de Desenvolvimento de Competências (Skill India), a Nova Política Nacional de Educação e a iniciativa Defeito Zero (ZED). Além disso, reafirmou seu compromisso com os princípios da Política Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação (CT&I) de 2013, que prevê, entre outras metas, ampliar a participação do setor privado no sistema nacional de CT&I por meio de parcerias público-privadas, com vistas a atingir o investimento equivalente a 2% do PIB em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D).

No caso do programa Digital India, por exemplo, seu objetivo central é promover a capacitação digital ampla, garantindo acessibilidade e disponibilizando serviços digitais em idiomas locais. Para isso, o governo indiano busca oferecer infraestrutura digital como um serviço essencial, além de fornecer serviços de governança eletrônica sob demanda. Também foram iniciadas ações para criar um ciberespaço seguro, desenvolver uma nuvem pública com espaços privados compartilháveis, ampliar o acesso à internet de alta velocidade, estabelecer uma rede de serviços bancários móveis e implantar uma identidade digital única e confiável.


  1. Impactos nas Exportações


Segundo o Trading Economics (2025), cerca de 70% das exportações da Índia correspondem a produtos manufaturados, evidenciando a predominância desse segmento na pauta exportadora do país. O economista Samuel Morley (2001) também aponta que a ausência de informações estatísticas desagregadas por empresa limita análises mais precisas sobre a relação entre o uso de fatores de produção e o desempenho exportador. A análise foi conduzida com base na classificação setorial ISIC, conforme os dados disponíveis.

Morley (2001) mostra que, em 2002, o país exportou para 210 destinos, demonstrando ampla diversificação de mercados com o passar dos anos. No período, cerca de 50,65% das exportações indianas têm como destino países desenvolvidos, enquanto 38,2% eram destinadas a países em desenvolvimento da Ásia. A América Latina representava apenas 2,6% das exportações indianas e o Brasil ocupava o 28º lugar como mercado de destino das exportações da Índia, que avançou nas últimas décadas para o 8º lugar atualmente.

A partir dos dados acima, podemos observar que o programa Make in India promoveu um fortalecimento da indústria manufatureira, ajudando a aumentar a capacidade produtiva e a qualidade dos bens manufaturados, além de uma maior diversificação da pauta exportadora e atração de investimentos estrangeiros, que contribuíram para modernizar fábricas, melhorar tecnologia e ampliar as linhas de produção voltadas para o mercado externo. O programa também impulsionou a criação de empregos em setores exportadores e incentivou a capacitação técnica, o que tende a aumentar a produtividade e a eficiência das exportações, contribuindo para o crescimento e diversificação das exportações indianas e reforçando o posicionamento do país na economia global.


  1. Impactos nas Importações


Em 1999, a Índia importava principalmente produtos manufaturados intensivos em capital e tecnologia, como máquinas, computadores e equipamentos médicos. Setores dependentes de recursos naturais e mão de obra tinham baixa participação nas importações, verificou-se também uma redução nas importações de setores estratégicos, como defesa, eletrônicos e fertilizantes. Houve correlação positiva, embora fraca, entre a participação das importações e indicadores como capital por trabalhador e salários, mostrando que os setores mais importadores eram mais intensivos em capital e tecnologia. Em contraste, os setores que mais exportam são mais intensivos em mão de obra, sugerindo que a Índia possui vantagens comparativas em bens intensivos nesse fator.

Com o lançamento do Make in India, o governo passou a incentivar a produção doméstica e a atrair investimentos estrangeiros diretos (IED), o que gerou diversos impactos positivos sobre as importações. O programa estimulou a produção nacional de bens anteriormente muito importados, como equipamentos militares, eletrônicos, fertilizantes e maquinários. Ademais, houve uma tendência de substituição de importações, especialmente em setores intensivos em capital e tecnologia, visando fortalecer a base industrial e reduzir o déficit comercial.

Contudo, apesar dos objetivos, em alguns setores as importações continuaram altas, principalmente devido à falta de infraestrutura, escala de produção e tecnologias competitivas no mercado global. Desse modo, a política industrial reduziu as importações em setores estratégicos ao fortalecer a produção doméstica, mas, ao mesmo tempo, manteve ou até ampliou as importações de insumos e tecnologias em outros setores, devido à integração global e limitações locais.


  1. Desafios e Limitações da Política


Apesar de seus objetivos ambiciosos, o Make in India enfrenta importantes obstáculos estruturais, como a infraestrutura deficiente, o alto custo da energia e a escassez de mão de obra qualificada que dificultam o avanço da industrialização em larga escala. E, embora o país tenha promovido reformas fiscais e regulatórias, a burocracia e a complexidade do sistema tributário ainda impõem barreiras ao investimento e à operação de empresas. Ademais, a Índia enfrenta forte competição de outros polos industriais emergentes, como China e Vietnã, que oferecem melhor infraestrutura e ambientes de negócios mais ágeis. 

Isso pode ser observado mais recentemente nos desafios da fabricação na Índia, com o fato da Production-Linked Incentive Scheme (PLI) não atingir as metas e o setor enfrentar dificuldades estruturais. Segundo o Portal Tela, com um investimento previsto de 1,97 trilhões de rúpias em 14 setores, como eletrônicos e automotivo, o programa não alcançou as metas esperadas: a participação da manufatura no PIB caiu de mais de 15% para 14% até março de 2025, e a meta de produção de 15,52 trilhões de rúpias foi reduzida para 14 trilhões até novembro de 2024. Apesar da adesão de 764 empresas, incluindo gigantes como Foxconn e Reliance Industries, muitos participantes relataram dificuldades para iniciar operações e atrasos nos subsídios (Portal Tela, 2025). O Ministério do Comércio e Indústria apontou benefícios como geração de empregos e aumento das exportações, mas especialistas, como o economista Dhiraj Nim (ANZ Bank), destacam problemas estruturais mais amplos, como leis trabalhistas rígidas, que comprometem a competitividade frente a países como Vietnã e Bangladesh.

Ainda assim, a Índia possui vantagens estratégicas, como uma população jovem e urbana com maior poder de consumo e o reposicionamento global de cadeias produtivas em meio às tensões comerciais com a China. Porém, possíveis tarifas retaliatórias dos EUA podem afetar essa atratividade, levando o governo a considerar cortes nas tarifas de importação. Assim, há grandes desigualdades na implementação da política entre os estados indianos, com variações significativas na eficiência administrativa, incentivos locais e capacidade de atrair investimentos, o que compromete a coesão e o alcance nacional da iniciativa.


  1. Perspectivas Futuras para o Comércio Exterior da Índia


Segundo o professor Srirang JHA, da Apeejay School of Management, em Nova Delhi, é essencial maior atenção em diversas questões, como a promoção de uma mentalidade voltada à qualidade, a ampliação da presença digital e o aprimoramento das competências e da empregabilidade. Ademais, é fundamental enfrentar entraves como corrupção, burocracia excessiva, urbanização desordenada e falta de infraestrutura nas áreas rurais, para que o programa Make in India tenha êxito. Além disso, JHA ressalta a ausência de uma cultura de qualidade no país, sendo desafiador difundir essa mentalidade, através de investimentos em abordagens integradas, como produção enxuta e gestão da qualidade total, a fim de alinhar os processos industriais aos padrões internacionais e alcançar excelência global.

A baixa inclusão digital da população indiana é mais um desafio a ser superado. Segundo JHA, grande parte da sociedade ainda está excluída do acesso digital, apesar dos esforços das operadoras de telecomunicações em oferecer internet por meio de celulares acessíveis e da instalação de centros de comunicação com internet em cada conselho de aldeia (panchayat), patrocinados pelo governo. Essa exclusão persiste sobretudo devido aos baixos níveis de escolaridade nas áreas rurais, onde a maioria da população é analfabeta ou tem apenas educação básica. Há também uma resistência generalizada ao uso das tecnologias da informação e comunicação, o que dificulta a expansão da digitalização nessas regiões.

Na área de materiais e tecnologias de fabricação, foram estabelecidas prioridades tecnológicas para oito setores industriais: vestuário e têxtil, couro, alimentos processados, indústria química, metalurgia eletrônica, dispositivos eletrônicos e TIC, fabricação de compósitos e produção em micro e nanoescala. As tecnologias prioritárias incluem engenharia de materiais e superfícies em escala nanométrica, manufatura aditiva e de precisão, automação adaptativa, eletrônica avançada, bioprodução e produção contínua, e fabricação sustentável. A adoção dessas tecnologias permitiria ao setor industrial suprir a demanda interna e exportar produtos de alto valor agregado.

Para além desses desafios, pode-se observar para o futuro do país uma maior integração em novos acordos comerciais, tendo parceiros na África, no Sudeste Asiático e na América Latina. O programa Make in India também busca novas formas de transição energética e economia verde para o país, com foco em energias renováveis, incentivo à produção nacional de tecnologia verdes, desenvolvimento de corredores industriais, entre outras iniciativas.


  1. Conclusão


A política Make in India, portanto, tem desempenhado um papel relevante na inserção da Índia nas cadeias globais de valor, ao buscar tornar o país um polo competitivo de produção e exportação de bens manufaturados. A iniciativa fortaleceu a imagem da Índia como um destino promissor para investimentos internacionais, principalmente em setores como eletrônicos, automotivo e tecnológico. Entre os impactos positivos mais visíveis, destacam-se a atração de empresas multinacionais, o estímulo à industrialização local, a modernização de alguns segmentos produtivos e a geração de empregos, especialmente nas regiões que conseguiram implementar melhor as diretrizes do programa.

No entanto, questões como infraestrutura precária, burocracia, baixa qualificação da mão de obra e rigidez regulatória continuam a restringir resultados mais expressivos, especialmente no comércio internacional. Diante desse cenário, é essencial que a política seja continuamente adaptada, com foco em maior eficiência na implementação, integração regional e apoio tecnológico à indústria nacional. O fortalecimento sustentável da base industrial indiana será decisivo para ampliar sua competitividade global, diversificar suas exportações e consolidar sua posição como potência manufatureira no cenário internacional.


  1. Bibliografia 


INSTITUTO DE ESTUDOS PARA O DESENVOLVIMENTO INDUSTRIAL (IEDI). Make in India: a nova estratégia de desenvolvimento industrial da Índia. Carta IEDI n. 849, 30 abr. 2019. Disponível em: https://www.iedi.org.br/cartas/carta_iedi_n_849.html. Acesso em: 14 jul. 2025.

MORLEY, Samuel A. 2001. The income distribution problem in Latin America and the Caribbean. Santiago de Chile: Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), série Livros de la CEPAL, símbolo LC/G.2127‑P. Disponível em: https://repositorio.cepal.org/handle/11362/2274. Acesso em: 1 ago. 2025.

PORTAL TELA. Desafios da fabricação na Índia: PLI não atinge metas e setor enfrenta dificuldades estruturais. Portal Tela, 27 mar. 2025. Disponível em: https://www.portaltela.com/economia/global/2025/03/27/desafios-da-fabricacao-na-india-pli-nao-atinge-metas-e-setor-enfrenta-dificuldades-estruturais. Acesso em: 04 ago. 2025.

TRADING ECONOMICS. India Manufacturing Production. Disponível em: https://pt.tradingeconomics.com/india/manufacturing-production. Acesso em: 1 ago. 2025.






 
 
 

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