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Motivações e Impactos Iniciais do Tarifaço Estadunidense na Economia Brasileira

Por: Bento Pimentel



Resumo


Este texto tem como objetivo apresentar uma análise sobre as principais motivações que levaram o então presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a implementar tarifas generalizadas contra o Brasil, sob a ótica econômica. Busca-se, igualmente, examinar os impactos que as tarifas aplicadas a parceiros estratégicos, como a China, tiveram na economia global, bem como os efeitos diretos das tarifas impostas ao Brasil sobre os mercados no curto prazo. Trata-se de uma discussão complexa, cujos fatos e consequências ainda estão em desenvolvimento, mas que já demonstram repercussões sociais, financeiras e ambientais no país. O texto procura equilibrar a avaliação de impactos que podem ser considerados positivos, ou ao menos menos prejudiciais, com a análise dos riscos que podem emergir de decisões inconsequentes, além dos receios do mercado diante da instabilidade comercial.


Motivações


Antes mesmo de Donald Trump, já havia uma tendência de escalada de tarifas entre os EUA e a China, no governo Biden. Em maio de 2024, carros elétricos chineses e seus insumos (como baterias de lítio) foram taxados em 100% e 25%, respectivamente. Todavia, sob a liderança de Donald Trump, observou-se uma expansão drástica das medidas protecionistas, aplicadas de forma generalizada, mas com maior ênfase em setores industriais. Nas negociações conduzidas com países afetados, acordos ligados ao acesso, desenvolvimento e exploração de terras raras, tanto internas quanto externas, eram empurradas em troca de alívio das sanções em setores estratégicos. Muitos analistas especulam que a intensa mobilização para afastar produtos manufaturados externos e assegurar o fornecimento de matéria prima, associadas à forte coordenação com o setor de tecnologia, dominado pelas “Big Techs”, faça parte dos esforços do presidente estadunidense de atrair investimentos industriais de volta aos EUA e incorporar uma ampla fatia das cadeias de produção para cumprir uma das maiores promessas de campanha, a de resgatar os empregos “chão-de-fábrica” com o país reindustrializado.


Dito isso, o Brasil se encontra na mira de Trump devido a uma combinação complexa de razões, considerando a existência de fatores político-ideológicos e o fato de que Trump, por deliberada estratégia política e negociativa, é pouco transparente com suas intenções. Porém, ao comparar as qualidades econômicas e naturais do Brasil, possuindo a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, estimada em mais de 21 milhões de toneladas métricas ainda pouco exploradas, é possível alegar que ele detém um perfil estratégico para o projeto nacional do presidente estadunidense. Para além dos recursos naturais, há também um crescente incômodo com o Brasil no âmbito tecnológico.


Em julho deste ano, a United States Trade Representative (USTR), representando os EUA no comércio internacional, lançou uma investigação contra o PIX, por práticas desleais no mercado digital brasileiro pelo fato do Banco Central administrar todas as funções da plataforma, incluindo processos normalmente geridos por empresas privadas como o sistema de pagamentos. Tal investigação conta com apoio da CCIA, um grupo lobista financiado por companhias como Meta, Microsoft e Google, algumas das quais também possuem plataformas de pagamento rivais e já manifestaram descontentamento com o Brasil por deliberações prévias controversas como a Lei Geral de Proteção de Dados, sob a qual a plataforma “X” pôde ser suspensa, destacando a importância para a atual administração americana de preservar a predominância digital de suas companhias ao redor do mundo.


Impacto das Tarifas Externas


As economias modernas atualmente estão altamente interligadas, especialmente a partir da segunda metade do século XX. Consequentemente, qualquer alteração, seja no âmbito político, econômico ou social de um país, tem repercussões para além de suas fronteiras. A depender de fatores como a proeminência no comércio global, a disponibilidade de recursos humanos e de recursos naturais, tais mudanças podem remodelar a dinâmica comercial e as cadeias produtivas em escala mundial em pouco tempo.


No mundo contemporâneo, a China constitui um exemplo paradigmático. Desde a reorientação política promovida por Deng Xiaoping, que abriu a economia chinesa ao capital estrangeiro, o país apresentou um crescimento médio anual de aproximadamente 9%, sustentado por sua vasta força de trabalho e pela implementação de reformas estruturais. Esse processo retirou mais de 700 milhões de pessoas da linha de pobreza e ampliou de forma significativa o poder de compra da população. Como resultado, a China consolidou-se como a segunda maior importadora do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, e como o principal destino das exportações brasileiras de produtos primários. Nesse contexto de expansão da demanda interna e de crescente relevância global, a imposição de tarifas comerciais pelos Estados Unidos, não apenas contra a China, mas também contra outras economias emergentes da Ásia, produziu impactos imediatos e expressivos sobre o Brasil.


No primeiro momento, nem todos os efeitos da disputa tarifária se mostraram negativos, o que se mostrou especialmente relevante no setor de commodities. Uma das retaliações chinesas contra as tarifas americanas incidiu sobre a importação de soja, a qual, até a data deste artigo, não está sendo importada pela China. Em vez disso, a demanda da soja americana, estimada em 12,6 bilhões de dólares em 2024, foi redirecionada para o Brasil, fazendo com que seu valor atingisse novos recordes no primeiro trimestre deste ano. Tendências semelhantes foram observadas em outros alimentos, incluindo grãos, carne bovina e avícola, embora em menor intensidade.


Por outro lado, esse cenário representou uma consequência desfavorável para os consumidores domésticos, devido ao redirecionamento de diversos alimentos para o exterior. A redução da oferta de produtos, combinada com a crescente demanda no mercado brasileiro, resultou em um aumento considerável dos preços, com previsão de crescimento total de 7% até o final do ano. Certos alimentos foram particularmente impactados, considerando que algumas commodities, como os grãos, são também essenciais para a produção de ração animal no Brasil, gerando elevações adicionais nos preços de carnes, que chegaram a 22,17% entre setembro de 2024 e setembro de 2025, e de derivados, como ovos, cujo aumento foi de 32,4%. Ambos os itens integram a cesta básica da população.


Para além dos efeitos negativos aos consumidores, questões quanto à sustentabilidade ambiental e econômica da expansão do setor agrícola também preocupam os analistas. A expansão de terras agrícolas sobre áreas como o Cerrado e a Floresta Amazônica ganhou novo incentivo com a alta da demanda em combinação com a suspensão da Moratória da Soja, pacto de agricultores, ONGs e o governo que efetivamente proibia a venda de soja de áreas recém desmatadas. Ademais, economistas da UFU e da FGV alertam para os riscos associados à propagação da monocultura de soja e à concentração de produção nas grandes empresas. Esse modelo, além de favorecer a formação de oligopólios e reduzir a produção de alimentos essenciais à população brasileira, aumenta a vulnerabilidade econômica do país, tornando-o mais dependente da rentabilidade da soja no mercado internacional. A situação é ainda mais crítica considerando que 85% da soja brasileira é exportada para a China, o que torna o plantio altamente sensível às variações na demanda chinesa, especialmente caso sejam suspensas as tarifas sobre a soja americana, o que poderia provocar uma forte redução de preços em função do aumento abrupto da oferta.


Tarifas Direcionadas ao Brasil


No entanto, o Brasil não está inserido na nova dinâmica do mercado global apenas como um ator que reage às mudanças ao seu redor mas é, desde 30 de julho de 2025, um agente diretamente envolvido na guerra tarifária. Até então, o Brasil se via relativamente ileso e até beneficiado pela aplicação das tarifas recíprocas impostas pelos EUA em Abril, nomeado por Trump como o Dia da Libertação com a tarifa base de apenas 10%, pouco comparado a União Europeia, taxada em 20%. Entretanto, em 6 de agosto, foi efetivada a imposição de tarifas de 40% adicionais para importações brasileiras para os Estados Unidos. A princípio, a medida parecia preocupante, considerando que os EUA são o segundo maior parceiro comercial do Brasil, para o qual exportamos no valor de mais de 40 bilhões de dólares em 2024, mas as isenções fizeram toda a diferença.


A maior isenção foi concedida ao petróleo bruto e seus derivados, produtos de destaque nas exportações brasileiras para os Estados Unidos, que, mesmo assim, sofreram uma redução de 18% em relação a 2024, totalizando apenas 2,9 bilhões de dólares, embora se espere uma recuperação futura. Outras commodities de alto valor, como o minério de ferro, bem como insumos energéticos, como o gás natural, também estão isentos devido ao seu interesse estratégico. A indústria de aviação, por sua vez, também se beneficiou das isenções. No total, foram quase 700 dispensações, muitas delas referentes a produtos centrais no comércio bilateral, o que contribui para reduzir o impacto das tarifas.


​​Porém, embora ainda seja cedo para que todos os impactos diretos das tarifas sejam plenamente sentidos, já é possível observar sinais de desconforto no mercado e um desejo de retomar a normalidade. A Embraer, por exemplo, afetada por tarifas de apenas 10% e ainda encerrando o último trimestre com superávit, anunciou investimentos nos Estados Unidos totalizando 500 milhões de dólares para os próximos três a cinco anos, com foco na produção de modelos específicos, como o avião militar KC-390. O presidente da empresa, Francisco Gomes Neto, estimou que, até o final de 2025, a Embraer poderia registrar perdas superiores a 65 milhões de dólares e comparou o impacto hipotético de uma tarifa de 50% ao efeito da pandemia de Covid-19 sobre seus resultados.


O caso da Embraer evidencia um componente relevante do conflito: a incerteza gerada pelo desenrolar inconclusivo das tarifas possui potencial para afetar negativamente o valor das empresas e dos investimentos, caso a especulação a seu respeito seja desfavorável. Considerando que, até o momento, apenas sinais iniciais de reconciliação foram observados, como o discurso de Trump na Assembleia Geral da ONU, a cautela do mercado configura um efeito indireto, porém significativo, da guerra tarifária.


Conclusão


Em última análise, este artigo propõe abarcar toda a complexidade dos efeitos da guerra tarifária sobre a economia brasileira, sobretudo porque as consequências e os eventos ainda se encontram em desenvolvimento. Entretanto, é pertinente realizar análises prospectivas e avaliar os riscos, especialmente em um contexto de mercado altamente volátil, no qual a demanda de bilhões de dólares em produtos pode mudar completamente com um só decreto ou a ameaça de um. No meio dessa disputa entre os grandes detentores do poderio econômico, consumidores, trabalhadores e o meio ambiente são agentes que se encontram à mercê de deliberações muitas vezes arbitrárias que visam remodelar completamente a face do comércio internacional. Assim, torna-se impossível prever se a configuração atual do mercado se manterá estável no curto prazo.


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