O Acordo de Parceria Mercosul-União Europeia e seu Desenvolvimento durante os 25 anos
- Liga de Comércio Internacional PUC-Rio

- 12 de dez. de 2025
- 6 min de leitura
Por: Andressa Cardoso do Nascimento

Resumo:
Este artigo apresenta o desenvolvimento das negociações do Acordo de Parceria entre o Mercosul e União Europeia (2025), iniciado em 1999 e estendido até o final de 2025, com uma possível ratificação por ambas as partes. Durante a leitura, apresenta-se a importância e o impacto econômico positivo que irá se instaurar para a economia interna dos países participantes do acordo. Além disso, trabalha-se como as posições de potências destaques nas negociações durante a 65ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, demonstrando posições contrárias dentro do território europeu e as altas expectativas dos membros do Mercosul. Por fim, examinam-se os movimentos no âmbito interno dos dois blocos, entendendo como ocorre a implementação do acordo, tendo em vista as pressões da instabilidade no comércio internacional após a posse de Donald Trump, nos Estados Unidos.
1. INTRODUÇÃO
Dentro do histórico das relações comerciais entre os países europeus e latino-americanos, o Acordo de Parceria entre Mercado Comum do Sul (Mercosul) e União Europeia (UE) (2025) se mostrou em destaque devido ao seu extenso período de negociações no acordo provisório. Ao observar-se as demandas internas, nota-se a inclusão de novas questões que precisam ser analisadas e discutidas entre os líderes políticos. Nesse contexto, a busca por fortalecer o livre comércio entre os países, especialmente diante do atual cenário do comércio internacional, faz com que o encontro dos líderes permita entender a posição de cada Estado e analisar mais profundamente suas perspectivas econômicas futuras.
Diante disso, o artigo está separado em três seções, sendo a primeira elaborada a fim de demonstrar como foi se desenvolvendo o acordo durante os anos, desde 1999 até o final de 2025, apresentando a importância de legitimar essa relação antiga. Na segunda seção, é trabalhado a perspectiva de grupos domésticos importantes da economia, como os agricultores e senadores, sobre a implementação. Por fim, a última seção apresenta as perspectivas futuras em relação à assinatura e ratificação por parte dos dois blocos, que, em uma ótica otimista, estão se desenvolvendo para sua finalização.
2. O COMEÇO DO ACORDO COMERCIAL ENTRE OS DOIS BLOCOS
Desde 1999, os blocos econômicos regionais Mercosul, integrado pelos países-membros Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, e União Europeia, composta por 27 países-membros, buscam realizar um acordo de livre comércio a fim de facilitar as relações econômicas e diminuir os custos entre os dois blocos. Ou seja, estão trabalhando para estabelecer um tratado bilateral firmado entre países ou blocos para abrir as portas aos negócios, evitando estabelecer limites mínimos ou máximos de comércio. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), assinar um acordo internacional “[...] pode gerar aumento de 0,46% na economia brasileira entre 2024 e 2040, além de um crescimento de 1,49% nos investimentos.” (Nakamura, 2024).
Assim, os acordos realizados podem impulsionar o comércio internacional e aumentar a produtividade e a eficiência econômica. Entretanto, podem também trazer problemas dentro do setor doméstico, como, por exemplo, a implementação de grandes multinacionais que podem levar à competição com empresas de pequeno porte, causando uma concentração de poder econômico. Além disso, esse foco pode levar à desigualdade econômica, com o beneficiamento de regiões específicas, prejudicando progressivamente mais a vida social de Estados subdesenvolvidos (Pacheco, 2023).
No caso deste acordo, durante a Cimeira da América Latina, Caribe e União Europeia, realizada no Rio de Janeiro (RJ), ocorreram tentativas de instaurar essa resolução comercial, porém, foi percebida a extensão das negociações. No começo, o intuito dos blocos era estabelecer uma complementaridade entre as partes. Contudo, ao aprofundar os critérios para rascunhar o acordo, apresentou-se uma complexidade no assunto, uma vez que a constante evolução do mundo acaba trazendo novas necessidades, dificultando o desenvolvimento do acordo e estendendo-o por 25 anos (Nakamura, 2024).
3. 65ª CÚPULA DE CHEFES DE ESTADO DO MERCOSUL E SEUS DESDOBRAMENTOS
Durante a 65ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, realizada em Montevidéu, nos dias 5 e 6 de dezembro de 2024, foi anunciada a conclusão das negociações do Acordo de Parceria entre o Mercosul e a União Europeia. Após duas décadas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou esse novo passo, reforçando que “Esse é um bom dia para o Mercosul, é um bom dia para a Europa, e, de certa forma, um momento histórico para nosso futuro compartilhado. [...] Vamos garantir que esse acordo produza tudo que promete e que, realmente, ajude as gerações futuras” (Schreiber; Prazeres, 2024).
Dentro do acordo previsto, será realizada uma redução de tarifas comerciais e facilitação de investimentos. Entre as expectativas dos líderes políticos, a principal seria o alavanque comercial entre os países, além de fortalecer as suas relações em um momento incerto na economia internacional. Essa última preocupação se mostrou presente devido aos ataques dos Estados Unidos (EUA) em relação a diversos Estados, como a China, que recebeu um aumento de 104% em todas as importações (Schreiber; Prazeres, 2024). Além disso, o Brasil, que participou ativamente da conferência, se mostra outro país preocupado com essas taxas, devido à taxação de 50% sobre produtos específicos, como o café, carne bovina, calçados, o setor siderúrgico e parte do setor de veículos (CNN Brasil, 2025).
Entretanto, dentro da Europa apresenta-se uma discordância entre a França e a União Europeia. Mesmo com a demonstração de certeza por parte de Von der Leyen, o governo estabeleceu uma posição totalmente contrária em suas redes sociais. A oposição francesa surge devido à forte contestação de produtores agrícolas, visto que, se caso o tratado for realmente implementado, colocaria em risco a situação de diversos empregos devido ao distanciamento de padrões de qualidade ambiental e sanitários fortemente exigidos pelos fazendeiros franceses. Essa objeção repercutiu amplamente, levando a rede francesa Carrefour a expressar seu descontentamento e instituindo a não compra de carnes do Mercosul, mas retirada rapidamente após reverberação negativa (Schreiber; Prazeres, 2024).
Mesmo com essa resistência, caso seja implementado, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva irá sair vitorioso desse acordo em relação ao mandato passado. Tendo em vista a perspectiva de 2019, foi realizada uma tentativa de instaurar uma resolução; entretanto, houve um congelamento nas etapas finais, durante o desgaste na relação europeia-brasil. Além disso, de acordo com Carolina Pavese, doutora em Relações Internacionais e especialista em Europa, essa negociação concederia um novo ânimo ao Mercosul, contornando a crise de propósito do bloco e essa divisão política interna que têm impedido o próprio Mercosul de avançar (Schreiber; Prazeres, 2024).
5. IMPLEMENTAÇÃO INTERNA COMO PRÓXIMO PASSO
Após essas negociações, os próximos passos seriam a assinatura, ratificação e implementação do documento no âmbito doméstico, com expectativa de assinatura em dezembro de 2025. Essa etapa pode ser complexa, visto que, a partir dessa especificidade de interesse de cada parte, principalmente de países da UE, é preciso que ocorra concordância entre os grupos políticos. Sob a ótica do funcionamento da revisão europeia, os Parlamentos têm papel central para a aprovação do acordo, sendo necessário a aprovação de 15 dos 27 países, de modo a representar 65% da população total da União Europeia (Schreiber; Prazeres, 2024).
Outro fator que entra nessa questão seria a tradução do acordo para diversas línguas. Segundo Marian Schuegraf, embaixadora da União Europeia no Brasil, “o processo é complexo, diante da união de 27 países com 24 línguas oficiais e vários níveis de governança”. Ambos os blocos estão dispostos a conduzir as atividades nos próximos meses. Vale ressaltar que, após concluída essa revisão, dentro da fase burocrática dos países do Mercosul, não será preciso esperar a aprovação dos quatro parlamentos nacionais, ou seja, a aprovação interna da Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai, dado que o acordo entrará em vigor individualmente (Agência Senado, 2025).
4. CONCLUSÃO
Portanto, o artigo demonstra que, após anos de negociação, o Acordo de Parceria entre Mercosul e União Europeia sinaliza um momento histórico para o futuro comercial dos blocos, sobretudo em um contexto de incerteza nas relações econômicas com outras grandes potências. Conforme colocado, ao envolver cerca de 700 milhões de pessoas e um produto interno bruto (PIB) de US$22 trilhões, a concretização dessa parceria resultará em benefícios de longo prazo, entre 2020 e 2024. Ademais, o acordo revela-se como meio de fortalecimento das relações europeias e latino-americanas.
Mesmo diante de questões complexas, como a insatisfação francesa e os processos domésticos que podem influenciar a expansão do tratado, os próximos passos trazem um sentimento de otimismo para ambas as economias. As expectativas são extremamente positivas, já que o Mercosul eliminará os tributos sobre 91% das exportações da UE, incluindo automóveis, reduzindo as tarifas dos atuais 35% ao longo de um período de 15 anos. Enquanto a UE eliminará progressivamente os tributos sobre 92% das exportações do Mercosul em um período de até 10 anos. Assim, essa diminuição de gastos e possibilidade de novos lucros, reforça a importância da diplomacia no livre-comércio dentro das relações internacionais, indo contra o crescente protecionismo econômico na contemporaneidade.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CNN Brasil. Tarifaço: veja lista de itens mais exportados do Brasil que serão taxados. São Paulo, 15 maio 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/tarifaco-veja-lista-de-itens-mais-exportados-do-brasil-que-serao-taxados/. Acesso em: 12 nov. 2025.
NAKAMURA, João. Entenda o que é o acordo de livre comércio entre Mercosul e UE. São Paulo, 4 dez. 2024. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/economia/macroeconomia/entenda-o-que-e-o-acordo-de-livre-comercio-entre-mercosul-e-ue/. Acesso em: 12 nov. 2025.
PACHECO, Kauana. Acordos comerciais internacionais. Gett Soluções em Sistemas para Comércio Exterior Ltda., 28 mar. 2023. Disponível em: https://gett.com.br/acordos-comerciais-internacionais/. Acesso em: 12 nov. 2025.
SCHREIBER, Mariana; PRAZERES, Leandro. O que é o acordo Mercosul-UE anunciado em cúpula e por que aprová-lo na Europa é tão importante para o Brasil. BBC Brasil, [s.l.], 4 dez. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c6234nk7x5po. Acesso em: 12 nov. 2025.
SENADO FEDERAL. “CRE: assinatura de acordo do Mercosul e União Europeia é esperada para dezembro.” Senado Notícias, 21 out. 2025. Disponível em: https://www12.senado.leg.br/noticias/materias/2025/10/21/cre-assinatura-de-acordo-do-mercosul-e-uniao-europeia-e-esperada-para-dezembro. Acesso em: 12 nov. 2025.




Comentários